sexta-feira, 13 de março de 2015

Os Respectivos Deveres de Pais e Filhos – John Gill


Esses deveres surgem de uma relação fundada na natureza. É um instinto natural [1] em todas as criaturas. Até mesmo a criação  mais selvagem ama a sua prole , cuida dela, fornece  alimento,  protege e defende-a. Se "Até os chacais dão de mamar aos seus filhos" (Lm 4:3), quanto mais afeto deve haver entre seres humanos racionais: "Pode uma mulher esquecer-se do filho de peito?" (Is 49:15). Por outro lado, como os filhos estão entre os mais perversos e dissolutos da humanidade,  pois são "desobedientes aos pais" e estão na mesma descrição representados como "sem afeição natural" (Rm 1:30-31; 2 Tm 3:2-3), como tal, devem ser assim culpados de total  ingratidão por não retribuírem  com amor filial a seus pais em todos os cuidados, problemas, dores e despesas que eles venham a ter ao criá-los no mundo. O desempenho dos seus deveres é uma parte da religião natural. O apóstolo chama-lhe de "religiosidade" [2] ou piedade (1 Tm 5: 4). Os pagãos à luz da natureza [3] ensinam essas coisas: Sólon [4], Phocylides [5] Pitágoras [6], Isócrates [7], Plutarco [8] e outros juntos exortam  primeiro a "honrar a Deus" e em seguida "honrar os pais" [ 9]. Na verdade os pais no exercício do seu amor, poder e cuidado, muito se assemelham ao Ser divino como Criador, Mantenedor, Protetor e Governador de suas criaturas. Uma vez que as crianças recebem a sua vida de Deus através de  seus pais, os mesmos são os instrumentos que devem  apresentá-los para o mundo, sustentá-los, apoiá-los e protegê-los. Philo, portanto, [10] observa que o "quinto mandamento relativamente a honra dos pais é colocado entre as duas tábuas da lei pelo fato de a natureza dos pais ser meyorion,ou seja, uma borda média, ou termo entre imortais e mortais ; sendo mortal em relação à cognição para os homens e outros animais de corpos corruptíveis e imortal, porque se assemelha em geração a Deus, o pai de todos ". Os filhos, portanto, têm muitas obrigações e vários deveres com relação a eles. Vou iniciar  na ordem, segundo a direção dada pelo apóstolo para ambos, pais e filhos.

1. Em primeiro lugar, os deveres dos filhos a seus pais estão incluídos e compreendidos na exortação geral:"Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo"(Ef 6: 1). As pessoas de quem se exige essa obediência são os "filhos" e as pessoas a quem a mesma é devida são os "pais”. Por filhos entende-se crianças de ambos os sexos, homens e mulheres de todas as idades que estão em uma relação de igualdade e obrigação de obediência aos pais desde a infância até à idade adulta. Embora o poder dos pais sobre os filhos seja menor quando os mesmos crescem, o dever de obediência, gratidão e reverência dos filhos não cessam. Na verdade é  mais provável que  aumente , uma vez que pode ser melhor aperfeiçoado. Crianças de todas as classes, estados e condições de vida, embora muitas vezes sejam superiores em honra, riqueza e espiritualidade aos pais, devem obedecer-lhes, como José e Salomão evidenciaram. Apesar de tal exortação ser direcionada especificamente aos filhos legítimos,  ainda nela estão incluídos  os filhos naturais e por adoção, como Moisés e Ester, genros e noras pela lei do casamento, como Moisés para Jetro e Rute para Noemi. Todos esses foram obsequiosos com aqueles a quem se relacionavam. Por "pais" inclui-se não apenas os imediatos, mas também todos em linha ascendente, como o pai de um pai e uma mãe, pai de uma mãe e sua mãe, ou avôs e avós, ou a qualquer pessoa superior com quem  estão vivendo têm direito à obediência. De fato todos os que estão exercendo o papel de  pais como os padrastos, madrastas, tutores, guardiões, governadores, enfermeiros, etc,  enquanto os mesmos estiverem sob seus cuidados, devem ser obedecidos  e submissos a eles; mas particularmente ambos os pais são destinadas, pai e mãe, como é explicado no verso seguinte: "Honra teu pai e tua mãe". Pai é colocado em primeiro lugar  por causa da ordem,  precedência e dignidade; às vezes isso é invertido para mostrar o respeito igual que se deve ter por ambos (Lv19:3). O dever exigido  é  a "obediência", que inclui o amor, a honra, a reverência, a gratidão e  a submissão.

1a. Amor; de onde toda a verdadeira obediência a Deus, a Cristo  e às criaturas provém. A desobediência é devido a uma falta de amor. Os  desobedientes aos pais são sem afeto natural, como antes observado. Os pais são mui dignos de ser amados, mas não mais do que a Deus e a Cristo: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim", diz Cristo, "não é digno de mim" (Mateus 10:37).

1b. Honra: A obediência é explicada pela honra  (Ef 6: 1-2; ver Ml 1:6.) expressa,

1b1. No pensamento e na estima; os filhos devem nutrir pensamentos honrosos e ações de estima aos seus pais, uma vez que o parecer contrário (Dt 27:16) conduz à desobediência a eles (Pv 30:17).

1b2. Por palavras; por falar honrosamente deles e com eles: "Eu vou, Senhor" é a expressão que demonstra em si honra e respeito, embora não expresse obediência (Mateus 21:30). Amaldiçoar pai ou mãe com a boca e os lábios  é escandaloso  e era  punido com morte pela lei levítica, segundo os juízos de Deus (Lv 20:9; 20:20; Pv  30:17).

1b3. Em gesto e comportamento; como o abraçar e curvar-se diante deles como fizeram José e Salomão (Gn 46: 29, 48: 12; 1 Reis 2:19).

1c. A obediência aos pais inclui o temor e a reverência a eles (Lv 19:3), o que é demonstrado pela paciência de um sofredor diante das provações  e correções  de Deus  (Hb 12:2), pelo reconhecimento das ofensas cometidas  através do pedido de perdão pelas mesmas (Lucas 15:18) e pela  ocultação das enfermidades naturais e morais dos pais, seja por velhice ou outra causa;  um exemplo disso temos em Sem e Jafé (Gn 9:21-23).

1d. Gratidão; através de uma retribuição pela bondade ao cuidar deles quando estiverem na miséria, sofrimento e velhice; assim José sustentou seu pai e sua família em um período de fome; assim Rute procedera com Noemi, embora fosse ela  apenas sua sogra;  Obede, filho de Rute,  fora por profecia o mantenedor dela em sua velhice; do mesmo modo Davi, embora exilado, conseguira a permanência de seu pai e de sua mãe junto ao rei de Moabe até que soubesse o  que aconteceria com ele  (Gn 47:12; Rute 2:18, 4:15; 1Sm 22: 3-4). Os fariseus são acusados ​​de violação desse dever por causa da tradição deles que perversamente isentava pessoas de socorrer seus pais em casos de necessidade (Mateus 15:4-6). Os pagãos ensinam coisas melhores: Sólon [11] afirma que são ignóbeis e desonrosos os que negligenciam os cuidados aos seus pais. Eneas, pelo fato de carregar seu pai e sua mãe nas costas na destruição de Tróia [12], pode ser visto como um exemplo de piedade filial. As cegonhas nos céus podem ensinar aos homens o dever de cuidar de suas mães em idade avançada [13], o qual fez com que  Aristófanes espirituosamente ligasse essa lei antiga às cegonhas [14].

1e. Submissão e sujeição as suas ordens, conselhos, repreensões e correções. A regra é: "Filhos, obedecei a vossos pais em todas as coisas" (Cl 3:20), não em coisas pecaminosas, contrárias às leis de Deus e às ordenanças de Cristo, pois  se os pais mandar seus filhos adorar outro Deus ou uma imagem de escultura, a fazer qualquer coisa proibida na primeira e segunda tábuas da lei ou ordenar-lhes que não professem o nome de Cristo nem  se submetam a seus preceitos, eles devem ser rejeitados  e em um sentido comparativo "odiados" (Lucas 14:26). Em tais casos apenas Deus deve ser obedecido, e não a homens, nem mesmo os pais. Todavia nas coisas que são retas, justas, segundo a vontade de Deus revelada em sua palavra e até mesmo em coisas indiferentes que não são proibidas, a obediência aos pais deve ser observada. Um exemplo disso temos nos recabitas cuja observância filial foi aprovada pelo Senhor  (Jr  35: 6-10,18,19). Do mesmo também em situações difíceis e desagradáveis ​​para carne e sangue, como os casos de Isaque e da filha de Jefté que submeteram a ser sacrificados por seus pais, a obediência a eles deve ser observada (Gênesis 22: 9; Jz 11:36.).

A maneira pela qual essa obediência deve ser prestada é "no Senhor" (Ef 6: 1), que é uma limitação da regra acima. Ela deve ser nas coisas referentes ao Senhor agradáveis a sua vista, feitas por causa dele e para sua glória, segundo a sua ordem e vontade, em obediência a ele. O Senhor Jesus em sua natureza humana estava sujeito a seus pais terrenos e assim deixou um exemplo de obediência filial a ser seguido (Lucas 2:51). A razão de se impor essa obediência é "por certa" agradável à lei da natureza, como antes observado, à razão e à lei da equidade. A gratidão exige  isto: crianças que receberam tantos favores de seus pais devem retribuir de maneira adequada  com amor filial, honra, reverência e obediência a eles. Honrar os pais é agradável à lei de Deus. No Decálogo ele é o "quinto”, mas no dizer do apóstolo é "o primeiro mandamento como promessa”; uma promessa de vida longa sempre contada como uma grande bênção. Os que desobedecem aos pais muitas vezes se  privam  dela , como no caso de Absalão.

2. Em segundo lugar, há deveres dos pais em relação a seus filhos, que são

2a. Em primeiro lugar, expresso negativamente: "Vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira" (Ef. 6: 4), que pode ser feito,

2a1. Por palavras, impondo sobre eles mandamentos injustos e imoderados; por freqüentes censuras públicas; por expressões indiscretas e impulsivas e pela linguagem insolente e reprovativa como a de Saul para Jônatas (1 Sm 20:30).

2a2. Por ações; ao mostrar mais amor a um do que a outro, como Jacó fez com José, enfurecendo seus irmãos que odiavam José e não podiam falar pacificamente com ele (Gn 37:8); não permitindo-lhes alimentos adequados e  suficientes (Mateus 7: 9,10; 1 Tm 5:8); não autorizando-lhes o lazer inocente que toda criança deve ter (Zacarias 8:5) e quando em uma idade ideal para o casamento, sugerindo-lhes pessoas não adequadas as suas inclinações [15]; restringindo-lhes as amizades com algumas pessoas   sem qualquer motivo justo; não lhes afastando de uma vida desregrada, pois a observância disso  garante um bom futuro para seus filhos; e, especialmente, por qualquer tratamento cruel e desumano, como o de Saul a Jônatas, quando ele atentou contra sua vida (1 Sm 20:33,34). Tais ações devem ser cuidadosamente evitadas, uma vez que todos os mandamentos, conselhos e correções ineficazes afastam o afeto dos filhos a seus pais. Segundo o apóstolo a razão pela qual isso deve ser deixado é "para que não desanimem" os filhos (Cl 3:21), sobrecarregado-lhes com dor e tristeza, pois assim, com espíritos quebrantados, tornar-se-iam  pusilânimes, desmotivados e desanimados; desse modo, privados das afeições dos pais, tornar-se-iam  negligentes com os seus deveres e desleixados com  as suas obrigações. Os pais sem dúvidas têm o direito de repreender seus filhos quando eles fazem algo errado. A culpa fora de Eli que não repreendera seus  filhos como convinha, permitindo-lhes agir de maneira muito vil. Ele era para desaprová-los, impondo seus mandamentos sobre eles, ameaçando-os severamente e punindo-os caso fossem refratários (1 Sm 2:23, 24; 3:13). Os pais devem usar a vara da correção o mais cedo possível  enquanto há esperança; mas sempre com moderação e amor,  evidenciando para seus filhos que assim agem  por amor a eles  e para o seu bem."Pais" são particularmente mencionados porque eles tendem a ser mais rigorosos e as mães mais indulgentes.

2b. Em segundo lugar, o dever de pais para filhos é expresso positivamente: "Mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor" (Ef. 6: 4), o qual se refere

2b1. Às coisas civis, considerando que elas são essenciais para eles, ou seja, os pais devem garantir para os filhos sustento e apoio, alimento e vestuário apropriado e conveniente e o que for honesto à vista de todos os homens (Rm 12:17; 1 Tm 5: 8); eles devem cuidar da educação deles, adequando-a  segundo a idade e a capacidade dos mesmos; devem instruí-los em alguma atividade comercial ou trabalho no momento adequado. Os judeus [16] têm um ditado: "Aquele que não ensina seu filho alguma atividade comercial ou industrial ou que não favoreça a isso é como se tivesse lhe ensinando a ser um ladrão secreto ou público.” Os pais, quando seus filhos estiverem na idade certa para o casamento, devem tomar esposas e maridos para eles; devem dar uma parte de seus bens para que eles possam  se estabelecer no mundo de acordo com as suas capacidades. É dever dos pais propiciar as condições para que os filhos se estabeleçam bem no mundo, assim como deixar-lhes algo de herança para que tenha um bom futuro.

2b2. E essa exortação pode ter relação com a formação religiosa dos filhos. Os pais devem ensinar  seus filhos a andar nos caminhos externos de Deus, o que eles não seguem  [17] e normalmente se afastam (Pv 22:6). Eles devem dar a eles bons exemplos de sobriedade, temperança, prudência etc, de modo que a partir de tal associação eles possam aprender o que é  mau e que as más conversações corrompem os bons costumes. As sementes do pecado aparecem cedo nas crianças. Os pais devem confrontar esses pecados no início, expor a pecaminosidade desses vícios que eles são mais inclinados, tais como: palavrões, mentiras etc. Eles devem orar freqüentemente com e para eles, como Abraão fez com Ismael. Eles devem ser sensíveis não só para atender as necessidades temporais, mas também as espirituais e eternas nos corações de seus filhos. Eles devem colocá-los sob os meios da graça, o ministério da palavra; ensiná-los a ler as escrituras, logo que aprendam; instruí-los no conhecimento das coisas divinas segundo a capacidade que eles têm de recebê-las; o que parece se entender  por “paideia” a educação do Senhor. Entretanto eu não posso dizer que realmente aprovo o método de ensino usado por algumas pessoas boas que ensinam seus filhos  o Credo , uma forma de profissão de fé, dizendo, eu acredito assim e assim antes que eles tenham qualquer conhecimento e fé nas verdades divinas. O balbuciar a Oração do Senhor, como é comumente chamada, e outras formas de oração parecem ter uma tendência a encaminhá-los a descansar em uma aparência exterior e a confiar em uma demonstração externa da justiça que eles não precisam ser ensinados a fazer, pois ela  é natural para eles. É adequado instruí-los na necessidade da fé em Deus e em Cristo e do uso da oração; evidenciar-lhes a malignidade do pecado e mostrar-lhes o que é uma coisa má e quais são os tristes efeitos delas; ensinar-lhes a condição  miserável de suas naturezas e o modo de recuperação e salvação em Cristo. Os pais devem  desde a infância de seus filhos ensinar-lhes a ler as escrituras sagradas e a conhecê-las, conforme a sua capacidade, a fim de que possam ser  "advertidos" do pecado e do seu dever de temer a Deus  e de guardar os seus mandamentos; o que pode ser o significado da "admoestação do Senhor". Na oportunidade adequada, quando suas mentes começarem a se abrir e eles se sentirem curiosos sobre o significado das coisas, elas devem ser incutidas em suas mentes (Veja Dt 6:20). Esses respectivos deveres devem ser cuidadosamente observados, uma vez que a paz e a ordem das famílias, o bem da comunidade, a prosperidade da igreja e aumento do interesse por Cristo, muito deles dependem.

NOTAS:
[1] "Communi autem animantium omnium est conjunctionis appetitus procreandi causa, et cura quaedam eorum quae sunt procreata", Cícero de officiis, l. 1. c. 4.
[2] eusebein. Valerius Maximus tem um capítulo, de pietate em Parentes, l. 5. c. 4.
[3] "Diligere parentes prima naturae lex ", ib. s. 7. et extern. s. 5.
[4] Laert. vit. Solon. p. 46.
[5] Poem. Admon. v. 6.
[6] Aurea Carmin. V. 1,2.
[7] Paraenes. ad Demonic. Orat. 1.
[8] peri filadelfiav, p. 479. Vol. 2.
[9] prwta yeon tima, metepeita te seio gonhav, Phocyl. Pythag. & C. ut supra.
[10] Deut. Decalogo, 759, 760.
[11] Laert. vit. Solon. l. 1.
[12] " Ergo age, chare pater, cervici imponere nostrae: Ipse subibo humeris, nec me labor iste gravabit". Virgil. Aeneid. l. 2. prope finem.
[13] Plin. Nat. Hist. l. 16. c. 23. Aristot. Hist. Animal. l. 6. c. 13.
[14] monov palaiov, en toiv twn pelargwn kurbesin, Aves, p. 604.
[15] "Hostis est uxor, invita quae ad virum nuptum datur", Plauti Stichus, Act. 1, sc. 2. v. 83.
[16] T. Bab. Kiddushin. fol. 30. 2.
[17] "Quo semel est imbuta recens, servabit odorem, testa diu", Horat. Epist. l.1.ep. 2. v. 69.

Fonte: Providence Baptist Ministries
Tradução: Luciano de Oliveira

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