Esses deveres surgem de
uma relação fundada na natureza. É um instinto natural [1] em todas as
criaturas. Até mesmo a criação mais
selvagem ama a sua prole , cuida dela, fornece
alimento, protege e defende-a. Se
"Até os chacais dão de mamar aos seus filhos" (Lm 4:3), quanto mais
afeto deve haver entre seres humanos racionais: "Pode uma mulher
esquecer-se do filho de peito?" (Is 49:15). Por outro lado, como os filhos
estão entre os mais perversos e dissolutos da humanidade, pois são "desobedientes aos pais" e estão
na mesma descrição representados como "sem afeição natural" (Rm
1:30-31; 2 Tm 3:2-3), como tal, devem ser assim culpados de total ingratidão por não retribuírem com amor filial a seus pais em todos os
cuidados, problemas, dores e despesas que eles venham a ter ao criá-los no
mundo. O desempenho dos seus deveres é uma parte da religião natural. O
apóstolo chama-lhe de "religiosidade" [2] ou piedade (1 Tm 5: 4). Os
pagãos à luz da natureza [3] ensinam essas coisas: Sólon [4], Phocylides [5]
Pitágoras [6], Isócrates [7], Plutarco [8] e outros juntos exortam primeiro a "honrar a Deus" e em
seguida "honrar os pais" [ 9]. Na verdade os pais no exercício do seu
amor, poder e cuidado, muito se assemelham ao Ser divino como Criador,
Mantenedor, Protetor e Governador de suas criaturas. Uma vez que as crianças
recebem a sua vida de Deus através de seus pais, os mesmos são os instrumentos que
devem apresentá-los para o mundo, sustentá-los,
apoiá-los e protegê-los. Philo, portanto, [10] observa que o "quinto mandamento
relativamente a honra dos pais é colocado entre as duas tábuas da lei pelo fato
de a natureza dos pais ser meyorion,ou seja, uma borda média, ou termo entre
imortais e mortais ; sendo mortal em relação à cognição para os homens e outros
animais de corpos corruptíveis e imortal, porque se assemelha em geração a Deus,
o pai de todos ". Os filhos, portanto, têm muitas obrigações e vários
deveres com relação a eles. Vou iniciar na ordem, segundo a direção dada pelo apóstolo
para ambos, pais e filhos.
1. Em primeiro lugar,
os deveres dos filhos a seus pais estão incluídos e compreendidos na exortação
geral:"Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é
justo"(Ef 6: 1). As pessoas de quem se exige essa obediência são os
"filhos" e as pessoas a quem a mesma é devida são os "pais”. Por
filhos entende-se crianças de ambos os sexos, homens e mulheres de todas as
idades que estão em uma relação de igualdade e obrigação de obediência aos pais
desde a infância até à idade adulta. Embora o poder dos pais sobre os filhos seja
menor quando os mesmos crescem, o dever de obediência, gratidão e reverência dos
filhos não cessam. Na verdade é mais
provável que aumente , uma vez que pode
ser melhor aperfeiçoado. Crianças de todas as classes, estados e condições de
vida, embora muitas vezes sejam superiores em honra, riqueza e espiritualidade aos
pais, devem obedecer-lhes, como José e Salomão evidenciaram. Apesar de tal
exortação ser direcionada especificamente aos filhos legítimos, ainda nela estão incluídos os filhos naturais e por adoção, como Moisés e
Ester, genros e noras pela lei do casamento, como Moisés para Jetro e Rute para
Noemi. Todos esses foram obsequiosos com aqueles a quem se relacionavam. Por
"pais" inclui-se não apenas os imediatos, mas também todos em linha
ascendente, como o pai de um pai e uma mãe, pai de uma mãe e sua mãe, ou avôs e
avós, ou a qualquer pessoa superior com quem estão vivendo têm direito à obediência. De
fato todos os que estão exercendo o papel de
pais como os padrastos, madrastas, tutores, guardiões, governadores,
enfermeiros, etc, enquanto os mesmos
estiverem sob seus cuidados, devem ser obedecidos e submissos a eles; mas particularmente ambos
os pais são destinadas, pai e mãe, como é explicado no verso seguinte:
"Honra teu pai e tua mãe". Pai é colocado em primeiro lugar por causa da ordem, precedência e dignidade; às vezes isso é
invertido para mostrar o respeito igual que se deve ter por ambos (Lv19:3). O
dever exigido é a "obediência", que inclui o amor, a
honra, a reverência, a gratidão e a submissão.
1a. Amor; de onde toda
a verdadeira obediência a Deus, a Cristo e às criaturas provém. A desobediência é
devido a uma falta de amor. Os
desobedientes aos pais são sem afeto natural, como antes observado. Os
pais são mui dignos de ser amados, mas não mais do que a Deus e a Cristo:
"Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim", diz Cristo,
"não é digno de mim" (Mateus 10:37).
1b. Honra: A obediência
é explicada pela honra (Ef 6: 1-2; ver
Ml 1:6.) expressa,
1b1. No pensamento e na
estima; os filhos devem nutrir pensamentos honrosos e ações de estima aos seus
pais, uma vez que o parecer contrário (Dt 27:16) conduz à desobediência a eles
(Pv 30:17).
1b2. Por palavras; por
falar honrosamente deles e com eles: "Eu vou, Senhor" é a expressão que
demonstra em si honra e respeito, embora não expresse obediência (Mateus
21:30). Amaldiçoar pai ou mãe com a boca e os lábios é escandaloso
e era punido com morte pela lei
levítica, segundo os juízos de Deus (Lv 20:9; 20:20; Pv 30:17).
1b3. Em gesto e
comportamento; como o abraçar e curvar-se diante deles como fizeram José e
Salomão (Gn 46: 29, 48: 12; 1 Reis 2:19).
1c. A obediência aos
pais inclui o temor e a reverência a eles (Lv 19:3), o que é demonstrado pela
paciência de um sofredor diante das provações e correções
de Deus (Hb 12:2), pelo
reconhecimento das ofensas cometidas através
do pedido de perdão pelas mesmas (Lucas 15:18) e pela ocultação das enfermidades naturais e morais
dos pais, seja por velhice ou outra causa; um exemplo disso temos em Sem e Jafé (Gn 9:21-23).
1d. Gratidão; através
de uma retribuição pela bondade ao cuidar deles quando estiverem na miséria,
sofrimento e velhice; assim José sustentou seu pai e sua família em um período
de fome; assim Rute procedera com Noemi, embora fosse ela apenas sua sogra; Obede, filho de Rute, fora por profecia o mantenedor dela em sua
velhice; do mesmo modo Davi, embora exilado, conseguira a permanência de seu
pai e de sua mãe junto ao rei de Moabe até que soubesse o que aconteceria com ele (Gn 47:12; Rute 2:18, 4:15; 1Sm 22: 3-4). Os
fariseus são acusados de violação desse dever por causa da tradição deles que
perversamente isentava pessoas de socorrer seus pais em casos de necessidade
(Mateus 15:4-6). Os pagãos ensinam coisas melhores: Sólon [11] afirma que são
ignóbeis e desonrosos os que negligenciam os cuidados aos seus pais. Eneas,
pelo fato de carregar seu pai e sua mãe nas costas na destruição de Tróia [12],
pode ser visto como um exemplo de piedade filial. As cegonhas nos céus podem
ensinar aos homens o dever de cuidar de suas mães em idade avançada [13], o
qual fez com que Aristófanes
espirituosamente ligasse essa lei antiga às cegonhas [14].
1e. Submissão e sujeição
as suas ordens, conselhos, repreensões e correções. A regra é: "Filhos,
obedecei a vossos pais em todas as coisas" (Cl 3:20), não em coisas
pecaminosas, contrárias às leis de Deus e às ordenanças de Cristo, pois se os pais mandar seus filhos adorar outro
Deus ou uma imagem de escultura, a fazer qualquer coisa proibida na primeira e
segunda tábuas da lei ou ordenar-lhes que não professem o nome de Cristo nem se submetam a seus preceitos, eles devem ser
rejeitados e em um sentido comparativo
"odiados" (Lucas 14:26). Em tais casos apenas Deus deve ser obedecido,
e não a homens, nem mesmo os pais. Todavia nas coisas que são retas, justas, segundo
a vontade de Deus revelada em sua palavra e até mesmo em coisas indiferentes
que não são proibidas, a obediência aos pais deve ser observada. Um exemplo
disso temos nos recabitas cuja observância filial foi aprovada pelo Senhor (Jr 35:
6-10,18,19). Do mesmo também em situações difíceis e desagradáveis para carne
e sangue, como os casos de Isaque e da filha de Jefté que submeteram a ser
sacrificados por seus pais, a obediência a eles deve ser observada (Gênesis 22:
9; Jz 11:36.).
A maneira pela qual
essa obediência deve ser prestada é "no Senhor" (Ef 6: 1), que é uma
limitação da regra acima. Ela deve ser nas coisas referentes ao Senhor agradáveis
a sua vista, feitas por causa dele e para sua glória, segundo a sua ordem e
vontade, em obediência a ele. O Senhor Jesus em sua natureza humana estava
sujeito a seus pais terrenos e assim deixou um exemplo de obediência filial a
ser seguido (Lucas 2:51). A razão de se impor essa obediência é "por certa"
agradável à lei da natureza, como antes observado, à razão e à lei da equidade.
A gratidão exige isto: crianças que
receberam tantos favores de seus pais devem retribuir de maneira adequada com amor filial, honra, reverência e
obediência a eles. Honrar os pais é agradável à lei de Deus. No Decálogo ele é
o "quinto”, mas no dizer do apóstolo é "o primeiro mandamento como
promessa”; uma promessa de vida longa sempre contada como uma grande bênção. Os
que desobedecem aos pais muitas vezes se privam dela
, como no caso de Absalão.
2. Em segundo lugar, há
deveres dos pais em relação a seus filhos, que são
2a. Em primeiro lugar,
expresso negativamente: "Vós, pais, não provoqueis vossos filhos à
ira" (Ef. 6: 4), que pode ser feito,
2a1. Por palavras, impondo
sobre eles mandamentos injustos e imoderados; por freqüentes censuras públicas;
por expressões indiscretas e impulsivas e pela linguagem insolente e reprovativa
como a de Saul para Jônatas (1 Sm 20:30).
2a2. Por ações; ao
mostrar mais amor a um do que a outro, como Jacó fez com José, enfurecendo seus
irmãos que odiavam José e não podiam falar pacificamente com ele (Gn 37:8); não
permitindo-lhes alimentos adequados e suficientes
(Mateus 7: 9,10; 1 Tm 5:8); não autorizando-lhes o lazer inocente que toda
criança deve ter (Zacarias 8:5) e quando em uma idade ideal para o casamento, sugerindo-lhes
pessoas não adequadas as suas inclinações [15]; restringindo-lhes as amizades
com algumas pessoas sem qualquer motivo justo; não lhes afastando
de uma vida desregrada, pois a observância disso garante um bom futuro para seus filhos; e,
especialmente, por qualquer tratamento cruel e desumano, como o de Saul a
Jônatas, quando ele atentou contra sua vida (1 Sm 20:33,34). Tais ações devem
ser cuidadosamente evitadas, uma vez que todos os mandamentos, conselhos e
correções ineficazes afastam o afeto dos filhos a seus pais. Segundo o apóstolo
a razão pela qual isso deve ser deixado é "para que não desanimem" os
filhos (Cl 3:21), sobrecarregado-lhes com dor e tristeza, pois assim, com
espíritos quebrantados, tornar-se-iam pusilânimes,
desmotivados e desanimados; desse modo, privados das afeições dos pais,
tornar-se-iam negligentes com os seus deveres
e desleixados com as suas obrigações. Os
pais sem dúvidas têm o direito de repreender seus filhos quando eles fazem algo
errado. A culpa fora de Eli que não repreendera seus filhos como convinha, permitindo-lhes agir de
maneira muito vil. Ele era para desaprová-los, impondo seus mandamentos sobre
eles, ameaçando-os severamente e punindo-os caso fossem refratários (1 Sm 2:23,
24; 3:13). Os pais devem usar a vara da correção o mais cedo possível enquanto há esperança; mas sempre com
moderação e amor, evidenciando para seus
filhos que assim agem por amor a
eles e para o seu bem."Pais"
são particularmente mencionados porque eles tendem a ser mais rigorosos e as
mães mais indulgentes.
2b. Em segundo lugar, o
dever de pais para filhos é expresso positivamente: "Mas criai-os na
disciplina e admoestação do Senhor" (Ef. 6: 4), o qual se refere
2b1. Às coisas civis, considerando
que elas são essenciais para eles, ou seja, os pais devem garantir para os
filhos sustento e apoio, alimento e vestuário apropriado e conveniente e o que for
honesto à vista de todos os homens (Rm 12:17; 1 Tm 5: 8); eles devem cuidar da
educação deles, adequando-a segundo a
idade e a capacidade dos mesmos; devem instruí-los em alguma atividade comercial
ou trabalho no momento adequado. Os judeus [16] têm um ditado: "Aquele que
não ensina seu filho alguma atividade comercial ou industrial ou que não favoreça
a isso é como se tivesse lhe ensinando a ser um ladrão secreto ou público.” Os
pais, quando seus filhos estiverem na idade certa para o casamento, devem tomar
esposas e maridos para eles; devem dar uma parte de seus bens para que eles
possam se estabelecer no mundo de acordo
com as suas capacidades. É dever dos pais propiciar as condições para que os
filhos se estabeleçam bem no mundo, assim como deixar-lhes algo de herança para
que tenha um bom futuro.
2b2. E essa exortação
pode ter relação com a formação religiosa dos filhos. Os pais devem
ensinar seus filhos a andar nos caminhos
externos de Deus, o que eles não seguem [17] e normalmente se afastam (Pv 22:6). Eles
devem dar a eles bons exemplos de sobriedade, temperança, prudência etc, de
modo que a partir de tal associação eles possam aprender o que é mau e que as más conversações corrompem os
bons costumes. As sementes do pecado aparecem cedo nas crianças. Os pais devem
confrontar esses pecados no início, expor a pecaminosidade desses vícios que
eles são mais inclinados, tais como: palavrões, mentiras etc. Eles devem orar
freqüentemente com e para eles, como Abraão fez com Ismael. Eles devem ser
sensíveis não só para atender as necessidades temporais, mas também as
espirituais e eternas nos corações de seus filhos. Eles devem colocá-los sob os
meios da graça, o ministério da palavra; ensiná-los a ler as escrituras, logo
que aprendam; instruí-los no conhecimento das coisas divinas segundo a
capacidade que eles têm de recebê-las; o que parece se entender por “paideia” a educação do Senhor. Entretanto
eu não posso dizer que realmente aprovo o método de ensino usado por algumas
pessoas boas que ensinam seus filhos o
Credo , uma forma de profissão de fé, dizendo, eu acredito assim e assim antes
que eles tenham qualquer conhecimento e fé nas verdades divinas. O balbuciar a
Oração do Senhor, como é comumente chamada, e outras formas de oração parecem
ter uma tendência a encaminhá-los a descansar em uma aparência exterior e a
confiar em uma demonstração externa da justiça que eles não precisam ser
ensinados a fazer, pois ela é natural
para eles. É adequado instruí-los na necessidade da fé em Deus e em Cristo e do
uso da oração; evidenciar-lhes a malignidade do pecado e mostrar-lhes o que é
uma coisa má e quais são os tristes efeitos delas; ensinar-lhes a condição miserável de suas naturezas e o modo de recuperação
e salvação em Cristo. Os pais devem desde a infância de seus filhos ensinar-lhes a
ler as escrituras sagradas e a conhecê-las, conforme a sua capacidade, a fim de
que possam ser "advertidos" do
pecado e do seu dever de temer a Deus e
de guardar os seus mandamentos; o que pode ser o significado da
"admoestação do Senhor". Na oportunidade adequada, quando suas mentes
começarem a se abrir e eles se sentirem curiosos sobre o significado das coisas,
elas devem ser incutidas em suas mentes (Veja Dt 6:20). Esses respectivos
deveres devem ser cuidadosamente observados, uma vez que a paz e a ordem das
famílias, o bem da comunidade, a prosperidade da igreja e aumento do interesse por
Cristo, muito deles dependem.
NOTAS:
[1] "Communi autem animantium omnium est conjunctionis appetitus procreandi causa, et cura quaedam eorum quae sunt procreata", Cícero de officiis, l. 1. c. 4.
[1] "Communi autem animantium omnium est conjunctionis appetitus procreandi causa, et cura quaedam eorum quae sunt procreata", Cícero de officiis, l. 1. c. 4.
[2] eusebein. Valerius
Maximus tem um capítulo, de pietate em Parentes, l. 5. c. 4.
[3] "Diligere parentes
prima naturae lex ", ib. s. 7. et extern. s. 5.
[4] Laert. vit. Solon. p. 46.
[5] Poem. Admon. v. 6.
[6] Aurea Carmin. V. 1,2.
[7] Paraenes. ad Demonic. Orat. 1.
[8] peri filadelfiav, p. 479. Vol.
2.
[9] prwta yeon tima,
metepeita te seio gonhav, Phocyl. Pythag. & C. ut supra.
[10] Deut. Decalogo, 759, 760.
[11] Laert. vit. Solon.
l. 1.
[12] " Ergo age,
chare pater, cervici imponere nostrae: Ipse subibo humeris, nec me labor iste
gravabit". Virgil. Aeneid.
l. 2. prope finem.
[13] Plin. Nat. Hist. l. 16. c. 23. Aristot. Hist.
Animal. l. 6. c. 13.
[14] monov palaiov, en toiv twn pelargwn kurbesin,
Aves, p. 604.
[15] "Hostis est uxor, invita quae ad virum
nuptum datur", Plauti Stichus, Act. 1, sc. 2. v. 83.
[16] T. Bab. Kiddushin.
fol. 30. 2.
[17] "Quo semel
est imbuta recens, servabit odorem, testa diu", Horat. Epist. l.1.ep. 2.
v. 69.
Fonte:
Providence Baptist Ministries
Tradução:
Luciano de Oliveira

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