O sol se tornará
em trevas, e a lua em sangue, antes de o grande e terrível dia do SENHOR
chegar. Joel 2:31
Ora, caso alguém
pergunte por que pela vinda de Cristo a cólera de Deus ficou mais excitada contra
os homens (pois essa pode parecer desarrazoada), a isso eu respondo que ela
foi, por assim dizer, acidental: pois se Cristo tivesse sido recebido como
devia ter sido, se todos o aceitassem com a devida reverência, ele decerto
teria sido o dador, não apenas da graça espiritual, mas também da alegria
terrena. A felicidade de todos, então, teria ficado mais completa em todos os
aspectos pela vinda de Cristo, não tivesse a impiedade e ingratidão deles
acendido outra vez a ira de Deus; e vemos que torrente de males irrompeu logo
após a pregação do Evangelho. Ora, quando refletimos sobre quão severamente
Deus afligiu seu povo anteriormente, não podemos senão dizer que muito mais
pesadas têm sido as calamidades infligidas ao mundo desde a manifestação de
Cristo — e por que isso? Precisamente porque a ingratidão do mundo havia
atingido o seu ponto mais alto, como deveras o é no presente: pois a luz do Evangelho
brilhou de novo, e Deus revelou-se ao mundo como Pai, mas vemos quão grandes
são a maldade e a perversidade dos homens em rejeitar os dons de Deus; vemos
alguns desdenhosamente rejeitando o Evangelho, e outros, impelidos por fúria
satânica, resistindo à doutrina de Cristo; vemo-los jactando-se de suas
blasfêmias, vemo-los abrasados com raiva cruel e respirando mortandades contra
os filhos de Deus; vemos o mundo cheio de ímpios e desprezadores de Deus; vemos
um terrível desdém pela graça divina prevalecendo em todos os lugares; vemos
uma licenciosidade desenfreada tal na malícia que faz com que nos envergonhemos
de nós próprios e fiquemos enfastiados de nossa vida. Visto, pois, que o mundo
é tão ingrato por um semelhante favor, é de se espantar que Deus exiba os mais
pavorosos sinais de sua vingança? Pois certamente, nos dias que correm, quando
examinamos cuidadosamente a condição do mundo, descobrimos que todos são miseráveis,
até aqueles que aplaudem a si mesmos, a quem o mundo admira como semideuses.
Como pode ser diferente? O povo ordinário, sem dúvida, geme debaixo de seus
infortúnios, e isso porque Deus pune, dessa maneira, o desprezo pela sua graça,
a qual ele novamente nos ofereceu, a qual é tão indignamente recusada. Então,
visto como uma tão vil ingratidão da parte dos homens provoca a ira de Deus,
não é de se maravilhar que o som de seus azorragues seja ouvido em todas as
partes: pois o servo que sabe a vontade de seu senhor e não a cumpre, é digno
de mais pesadas chicotadas (Lucas 12.47), segundo declara Cristo. E o que
acontece pelo mundo inteiro é que, depois de Deus haver refulgido por seu
Evangelho, depois de Cristo haver por todos os lugares proclamado a
reconciliação, agora apostatam abertamente, demonstrando preferirem Deus irado
a propício para com eles: pois quando o Evangelho é repudiado, o que mais é
isso senão declarar guerra contra ele, escarnecendo e não recebendo a
reconciliação que Deus está pronto para dar, da qual ele, por iniciativa
própria, dispõe aos homens?
Pode-se
perguntar a qual dia o Profeta se refere: pois até aqui ele falou da primeira
vinda de Cristo; e parece haver alguma incoerência neste ponto. Respondo que o
Profeta inclui todo o reino de Cristo, do começo ao fim; e isto está bem
entendido, e noutras partes afirmamos que os Profetas em geral falam dessa
maneira: pois quando o discurso é concernente ao reino de Cristo, eles algumas
vezes aludem somente ao seu princípio, e algumas vezes falam de seu término;
porém, muitas vezes assinalam, através de uma projeção, todo o curso do reino
de Cristo, de seu início até o seu fim; e tal é o caso aqui. O Profeta, ao
dizer: ‘Depois daqueles dias eu derramarei meu Espírito’, indubitavelmente
queria dizer que isto, como explicamos, seria realizado quando Cristo
principiasse o reino dele, tornando-o conhecido mediante o ensino do Evangelho:
Cristo, pois, derramou seu Espírito. Todavia, como o reino de Cristo não é de
poucos dias, ou de período curto, mas continua seu curso até o fim do mundo, o
Profeta volta sua atenção àquele dia ou àquela época, e diz: “Haverá, no entre tempo,
as maiores calamidades: e todo aquele que não se refugiar na graça de Deus será
mui desditoso; jamais encontrará repouso ou conforto, nem a luz da vida, pois o
mundo ficará mergulhado em trevas; e Deus tirará do sol, da lua, dos elementos e
de todos os outros apoios as provas de seu favor; e revelar-se-á em todos os
lugares irado e ofendido com os homens”. Mais adiante o Profeta mostra que tais
males dos quais fala não seriam por poucos dias ou anos, mas perpétuos; ‘Antes’,
diz, ‘o dia de Jeová, grande e terrível, virá’. Em suma, quer dizer que todos
os flagelos de Deus que ele mencionou até agora seriam, por assim dizer,
preparativos para subjugar os corações dos homens, para que com reverência e
submissão recebessem a Cristo. Como, portanto, os homens por natureza carregam
um espírito altivo, não conseguindo dobrar seus pescoços e desistindo do jugo
de Cristo, o Profeta, por isso, diz aqui que eles tinham de ser submetidos a
severos açoites quando Deus removesse todas as evidências de seu amor e
enchesse céu e terra de terror. Desse modo, então, ele, de certa maneira,
transformaria a dureza e contumácia que é inata aos homens para que conhecessem
que tinham de se avir com Deus. E, ao mesmo tempo, o Profeta os lembra de que,
caso não fossem corrigidos por essas chicotadas, algo mais horroroso restava a
eles: o Juiz, finalmente, desceria do céu, não somente para vestir de trevas o
sol e a lua, mas para tornar a vida em morte. Realmente, seria muitíssimo
melhor aos réprobos morrer cem vezes a viver sempre e, assim, manter a morte
eterna na vida mesma.
O Profeta então
quer dizer que os homens, persistindo em sua obstinação, toparão algo mais grave
e ruinoso do que os males desta vida, pois todos, por fim, ficarão diante do
tribunal do Juiz celeste: pois o dia de Jeová, grande e terrível, chegará. Ele
se refere, nessa frase, aos incrédulos e rebeldes contra Deus; pois, quando
Cristo vier, será um Redentor para os piedosos: nenhum dia em toda a vida
brilhará sobre eles de maneira tão deleitosa; tão longe está esse dia de lhes
trazer terror e medo que esses são convidados, enquanto o esperam, a levantar
suas cabeças, o que é um sinal de alegria e júbilo. Porém, como o objetivo do
Profeta Joel era humilhar o confiante orgulho carnal, e como se dirigia aos
obstinados e insubordinados, não espanta que ponha diante deles o que é
assombroso e terrível.
Fonte: Comentários sobre Joel 2:31. Editora
Monergismo: pp. 70 e 71.

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