domingo, 7 de junho de 2015

A Natureza do Reino de Cristo ( VI ) - João Calvino


O sol se tornará em trevas, e a lua em sangue, antes de o grande e terrível dia do SENHOR chegar. Joel 2:31

Ora, caso alguém pergunte por que pela vinda de Cristo a cólera de Deus ficou mais excitada contra os homens (pois essa pode parecer desarrazoada), a isso eu respondo que ela foi, por assim dizer, acidental: pois se Cristo tivesse sido recebido como devia ter sido, se todos o aceitassem com a devida reverência, ele decerto teria sido o dador, não apenas da graça espiritual, mas também da alegria terrena. A felicidade de todos, então, teria ficado mais completa em todos os aspectos pela vinda de Cristo, não tivesse a impiedade e ingratidão deles acendido outra vez a ira de Deus; e vemos que torrente de males irrompeu logo após a pregação do Evangelho. Ora, quando refletimos sobre quão severamente Deus afligiu seu povo anteriormente, não podemos senão dizer que muito mais pesadas têm sido as calamidades infligidas ao mundo desde a manifestação de Cristo — e por que isso? Precisamente porque a ingratidão do mundo havia atingido o seu ponto mais alto, como deveras o é no presente: pois a luz do Evangelho brilhou de novo, e Deus revelou-se ao mundo como Pai, mas vemos quão grandes são a maldade e a perversidade dos homens em rejeitar os dons de Deus; vemos alguns desdenhosamente rejeitando o Evangelho, e outros, impelidos por fúria satânica, resistindo à doutrina de Cristo; vemo-los jactando-se de suas blasfêmias, vemo-los abrasados com raiva cruel e respirando mortandades contra os filhos de Deus; vemos o mundo cheio de ímpios e desprezadores de Deus; vemos um terrível desdém pela graça divina prevalecendo em todos os lugares; vemos uma licenciosidade desenfreada tal na malícia que faz com que nos envergonhemos de nós próprios e fiquemos enfastiados de nossa vida. Visto, pois, que o mundo é tão ingrato por um semelhante favor, é de se espantar que Deus exiba os mais pavorosos sinais de sua vingança? Pois certamente, nos dias que correm, quando examinamos cuidadosamente a condição do mundo, descobrimos que todos são miseráveis, até aqueles que aplaudem a si mesmos, a quem o mundo admira como semideuses. Como pode ser diferente? O povo ordinário, sem dúvida, geme debaixo de seus infortúnios, e isso porque Deus pune, dessa maneira, o desprezo pela sua graça, a qual ele novamente nos ofereceu, a qual é tão indignamente recusada. Então, visto como uma tão vil ingratidão da parte dos homens provoca a ira de Deus, não é de se maravilhar que o som de seus azorragues seja ouvido em todas as partes: pois o servo que sabe a vontade de seu senhor e não a cumpre, é digno de mais pesadas chicotadas (Lucas 12.47), segundo declara Cristo. E o que acontece pelo mundo inteiro é que, depois de Deus haver refulgido por seu Evangelho, depois de Cristo haver por todos os lugares proclamado a reconciliação, agora apostatam abertamente, demonstrando preferirem Deus irado a propício para com eles: pois quando o Evangelho é repudiado, o que mais é isso senão declarar guerra contra ele, escarnecendo e não recebendo a reconciliação que Deus está pronto para dar, da qual ele, por iniciativa própria, dispõe aos homens?

Pode-se perguntar a qual dia o Profeta se refere: pois até aqui ele falou da primeira vinda de Cristo; e parece haver alguma incoerência neste ponto. Respondo que o Profeta inclui todo o reino de Cristo, do começo ao fim; e isto está bem entendido, e noutras partes afirmamos que os Profetas em geral falam dessa maneira: pois quando o discurso é concernente ao reino de Cristo, eles algumas vezes aludem somente ao seu princípio, e algumas vezes falam de seu término; porém, muitas vezes assinalam, através de uma projeção, todo o curso do reino de Cristo, de seu início até o seu fim; e tal é o caso aqui. O Profeta, ao dizer: ‘Depois daqueles dias eu derramarei meu Espírito’, indubitavelmente queria dizer que isto, como explicamos, seria realizado quando Cristo principiasse o reino dele, tornando-o conhecido mediante o ensino do Evangelho: Cristo, pois, derramou seu Espírito. Todavia, como o reino de Cristo não é de poucos dias, ou de período curto, mas continua seu curso até o fim do mundo, o Profeta volta sua atenção àquele dia ou àquela época, e diz: “Haverá, no entre tempo, as maiores calamidades: e todo aquele que não se refugiar na graça de Deus será mui desditoso; jamais encontrará repouso ou conforto, nem a luz da vida, pois o mundo ficará mergulhado em trevas; e Deus tirará do sol, da lua, dos elementos e de todos os outros apoios as provas de seu favor; e revelar-se-á em todos os lugares irado e ofendido com os homens”. Mais adiante o Profeta mostra que tais males dos quais fala não seriam por poucos dias ou anos, mas perpétuos; ‘Antes’, diz, ‘o dia de Jeová, grande e terrível, virá’. Em suma, quer dizer que todos os flagelos de Deus que ele mencionou até agora seriam, por assim dizer, preparativos para subjugar os corações dos homens, para que com reverência e submissão recebessem a Cristo. Como, portanto, os homens por natureza carregam um espírito altivo, não conseguindo dobrar seus pescoços e desistindo do jugo de Cristo, o Profeta, por isso, diz aqui que eles tinham de ser submetidos a severos açoites quando Deus removesse todas as evidências de seu amor e enchesse céu e terra de terror. Desse modo, então, ele, de certa maneira, transformaria a dureza e contumácia que é inata aos homens para que conhecessem que tinham de se avir com Deus. E, ao mesmo tempo, o Profeta os lembra de que, caso não fossem corrigidos por essas chicotadas, algo mais horroroso restava a eles: o Juiz, finalmente, desceria do céu, não somente para vestir de trevas o sol e a lua, mas para tornar a vida em morte. Realmente, seria muitíssimo melhor aos réprobos morrer cem vezes a viver sempre e, assim, manter a morte eterna na vida mesma.

O Profeta então quer dizer que os homens, persistindo em sua obstinação, toparão algo mais grave e ruinoso do que os males desta vida, pois todos, por fim, ficarão diante do tribunal do Juiz celeste: pois o dia de Jeová, grande e terrível, chegará. Ele se refere, nessa frase, aos incrédulos e rebeldes contra Deus; pois, quando Cristo vier, será um Redentor para os piedosos: nenhum dia em toda a vida brilhará sobre eles de maneira tão deleitosa; tão longe está esse dia de lhes trazer terror e medo que esses são convidados, enquanto o esperam, a levantar suas cabeças, o que é um sinal de alegria e júbilo. Porém, como o objetivo do Profeta Joel era humilhar o confiante orgulho carnal, e como se dirigia aos obstinados e insubordinados, não espanta que ponha diante deles o que é assombroso e terrível.



Fonte: Comentários sobre Joel 2:31. Editora Monergismo: pp. 70 e 71.

Nenhum comentário:

Postar um comentário