E o reino, e o domínio, e a majestade dos
reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu
reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão.
Daniel 7:27
Isso parcialmente
cumpriu-se quando o evangelho emergiu da perseguição; então o nome de Cristo
foi por toda parte celebrado e mantido em honra e estima, embora previamente
estivera sujeito à mais intensa inveja e ódio. Pois nada tem sido mais odiado e
detestado ao longo de tempos infindáveis do que o nome de Cristo. Deus,
portanto, então deu o reino a seu povo, ao ser ele reconhecido como Redentor do
mundo através de suas muitas mudanças, depois de ter sido previamente desprezado
e totalmente rejeitado. E posso aqui observar ainda, e imprimir na memória o
que já mencionei com freqüência, ou seja: o hábito dos profetas, ao tratarem do
reino de Cristo, era estenderem eles seu significado para além de seus primórdios;
e fazem isso enquanto insistem em seu começo. Assim Daniel, ou o anjo, não
prediz aqui ocorrências conectadas com o advento de Cristo como Juiz do Mundo,
mas com a primeira pregação e promulgação do evangelho e a celebração do nome
de Cristo. Mas isso não o impede de delinear um magnificente quadro do reinado
de Cristo e envolver sua completação final. É suficiente percebermos como Deus
começa a dar o reino seu povo eleito,
quando, pelo poder de seu Espírito, a doutrina do santo evangelho foi recebida
em todas as partes da terra. A súbita mudança que ele ocasionou foi incrível,
porém esse é um resultado costumeiro; pois quando algo predito, pensamos que o
mesmo não passa de fábula e de sonho, e quando Deus realiza o que jamais
teríamos imaginado, o evento parece-nos trivial e o tratamos como algo sem
valor. Por exemplo, quando a pregação do evangelho teve inicio, ninguém teria
imaginado que seu sucesso poderia chegar a ser tão grande e tão próspero;
aliás, duzentos anos depois que Cristo manifestou- se, quando a religião estava
quase apagada e os judeus eram execrados pelo mundo inteiro, quem teria imaginado
que a Lei sairia de Sião? Todavia Deus erigiu ali seu cetro. A dignidade do
reino havia desvanecido, a família de Davi estava extinta. Pois a família de
Jessé era apenas um tronco, segundo o símile usado pelo profeta Isaías [ 11.1].
Se alguém houvera perguntado a todos os judeus, um após outro, nenhum deles
teria crido na possibilidade daqueles eventos que acompanharam a pregação do evangelho;
mas por fim a dignidade e a virtude do reino de Davi resplandeceram em Cristo. Todavia,
ela desvanece diante de nossos olhos e buscamos novos milagres, como se Deus
não houvera suficientemente provado ter ele falado por boca de seus profetas !
Assim observamos como o profeta se mantém dentro dos limites quando diz: Um reino, e poder, e a magnitude do império
passsaram para o povo dos santos.
O rabino Abarbinel, que
acredita ser superior a todos os demais, rejeita nossa idéia do reinado
espiritual de Cristo como sendo tola imaginação. Pois o reino de Deus, diz ele,
está estabelecido debaixo de todos os céus e é dado ao povo dos santos. Se está
estabelecido debaixo do céu, diz ele, então é terreno; e se é terreno, então
não é espiritual. Esse de fato parece ser um argumento muito sutil, como se
Deus não pudesse reinar no mundo exceto como um ordinário mortal. Enquanto a
Escritura diz “ Deus reina”, segundo
este argumento Deus deve ser
transfigurado na natureza humana, do contrário não existiria o reino de Deus a
não ser que o mesmo seja terreno; e se é terreno, é temporal, e portanto perecível.
Daí inferimos que Deus muda sua natureza. Seu reino, pois, consistirá em opulência, o poder e a ostentação militares, bem como as
concupiscências comuns da vida – de modo que Deus se tornará distinto de si
mesmo. Percebemos a pueril trivialidade daqueles rabinos que pretendem
gloriar-se em sua engenhosidade que visa à total destruição de todo o ensino da
piedade. Nada mais intentam além de adulterar a pureza da Escritura com seus
comentários pútridos e sem sentido. Nós, porém, sabemos que o reino de Deus e
de Cristo, ainda que existindo no mundo, todavia não lhe pertence [Jo 19.36]; o
significado das duas expressões é exatamente o oposto. Deus, portanto, ainda
exerce seu reinado celestial no mundo, visto que ele habita os corações de seu povo
por meio de seu Espírito. Enquanto Deus mantinha sua sede em Jerusalém, seu
reino era meramente um reino terreno e corruptível? De modo nenhum, pois pela
possessão de uma habitação terrena ele não cessou de estar também no céu. Assim
o anjo instruiu o profeta concernente aos santos que são peregrinos no mundo, e
todavia desfrutarão do reino e possuem o mais estupendo poder debaixo do céu. Daí
também corretamente concluirmos que esta visão não deve ser explicada pelo
prisma da vinda final de Cristo, mas do estado imediato da Igreja. Os santos
começaram a reinar debaixo do céu quando Cristo os introduziu em seu reino pela
promulgação do evangelho. [...] o que pertence à cabeça é transferido para o
corpo. Não há nada novo nisso, visto que o supremo poder é constantemente
prometido pelos profetas à Igreja, especialmente por Isaías que prediz sua
completa supremacia.
Fonte:
Comentários em Daniel 7: 27. Edições Parkletos: pp. 88 a 90.

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