Tendo tratado do
pecado, da queda dos nossos primeiros pais, da violação do pacto de obras por
eles, dos tristes efeitos desse ato para si mesmos, bem como das conseqüências
deploráveis do mesmo a sua posteridade; da imputação do seu pecado e do
surgimento de uma natureza corrupta neles; dos pecados e transgressões reais
que fluem dali da punição devida a eles, apresento agora a graça às transgressões desse homem caído, a
sua aplicação e bênçãos para a semente
espiritual de Cristo entre os descendentes de Adão.
Havendo considerado o
pacto de graça em uma antiga parte deste trabalho como um acordo eterno na
eternidade entre as três pessoas da divindade: Pai, Filho e Espírito e como
cada pessoa concordou em assumir sua parte na economia da salvação do homem,
agora considerarei a administração dessa
aliança nos vários períodos de tempo, desde o princípio do mundo até o fim de
tudo. O pacto da graça, do qual Cristo é a substância, é uno e igual em todos os tempos; Cristo fora dado
para fazer "um pacto com o
povo", com todo o povo de Deus,
tanto judeus como gentios; Ele é "o mesmo" no "ontem" do
Antigo Testamento e no "hoje"
do Novo Testamento e será para sempre;
Ele é "o caminho, a verdade e a
vida", o único caminho verdadeiro para a vida eterna; nunca houve qualquer
outro modo a conhecer aos homens desde a queda de Adão; nenhum outro nome
debaixo do céu foi dado ou será dado aos homens no qual podem ser salvos. Os
patriarcas antes do dilúvio e depois, perante a lei de Moisés e sob ela, antes
da vinda de Cristo, todos os santos são salvos da mesma forma, ou seja,
"pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo". Essa é a graça do pacto, exibida em momentos diferentes
e de muitas maneiras. Pois, embora o pacto seja apenas um, há diferentes
administrações dele; particularmente duas: uma antes da vinda de Cristo e outra após ela,
que estabelecem as bases para a distinção da "primeira" e
"segunda", o "velho" e o "novo" pacto observado
pelo autor da epístola aos Hebreus (Hb 8: 7,8,13; 9 : 1,15; 12:24). Pela
primeira e antiga aliança não se entende o pacto de obras feito com Adão e que fora
quebrado e revogado há muito tempo, uma vez que o apóstolo está falando de um
pacto que envelheceu e está próximo a
desaparecer em seu tempo. O pacto de obras não fora o primeiro e nem é a mais antiga aliança, pois sendo o
pacto da graça um acordo eterno, fora antes dele. Na realidade o apóstolo está
a se referir a primeira e mais antiga administração do pacto da graça que
começara a atuar desde a queda de Adão,
quando o pacto de obras fora quebrado, até a vinda de Cristo, quando fora
substituído e ab-rogado por outra administração da mesma aliança chamada, portanto, de "segundo" ou "novo" pacto. Aquele que comumente
chamamos de dispensação do Velho Testamento e outra dispensação do Novo
Testamento, para os quais parece haver algum fundamento em 2 Coríntios 3: 6,14
e Hebreus 9:15. Esses dois convênios, ou melhor, duas administrações do mesmo
pacto, são alegoricamente representadas pelas duas mulheres: Agar e Sara, a
escrava e a livre (Gl 4: 22-26), que
descrevem adequadamente a natureza e a diferença deles. Antes de eu prosseguir
mais adiante, vou apenas destacar a concordância e discordância das duas
administrações do pacto da graça.
1. Em primeiro lugar, a
concordância que existe entre elas.
1a. Elas concordam em causa
eficiente: Deus. O pacto da graça na sua constituição original na eternidade é de Deus, por isso é chamado de seu pacto,
que está sendo feito por ele: "Fiz um pacto – não quebrarei minha
aliança" ( Sl 89: 3,34) . Sempre que qualquer exposição ou manifestação
desta aliança foi feita a qualquer um dos patriarcas, como a Abraão, Davi etc,
ela é atribuída a Deus: "Eu farei minha aliança- ele estabeleceu comigo uma aliança eterna" (Gn 17: 2; 2
Sm 23: 5). O novo pacto ou nova
administração do mesmo também ocorrer
desse modo: "Eu estabelecerei uma nova aliança etc. ( Hb 8: 8).
1b. Em motivo de causa:
a misericórdia soberana e a livre graça
de Deus, o que levou Deus a fazer o pacto da graça no princípio (Sl 89: 2,3).Todas
as exposições sob a dispensação anterior são uma rica exibição do mesmo, por
isso é chamado a "misericórdia com
os pais" em sua "santa aliança" (Lucas 1:72). Isso fora expandido com a vinda de Cristo, a qual
é atribuída a "a misericórdia do nosso Deus", onde "graça" e "verdade" em
grande abundância são ditas vir com ele; na qual os nomes do pacto da
graça, sob a dispensação do evangelho, é chamado em distinção do mesmo sob a
dispensação mosaica (Lucas 1:78; Jo 1:17).
1c. Com o mediador:
Cristo. Há um só mediador do pacto de graça em ambas as dispensações. Mesmo sob
a dispensação anterior Cristo fora revelado como a semente da mulher que iria
esmagar a cabeça da serpente e faria expiação através de sua morte e
sofrimentos, representados pelas sacrifícios expiatórios nos termos da lei, por
Siló , O Pacificador, o Conselheiro, o Redentor vivo de Jó e de todos os
crentes do Velho Testamento. Moisés na verdade era um mediador, mas ele era
apenas um tipo. Há apenas "um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo
Jesus, homem"; nunca houve qualquer outro; ele é o "mediador de uma
nova aliança" (1 Tm 2: 5; Hb 12:24).
1d. Com os indivíduos destes pactos ou administrações dos
pactos da graça: os eleitos de Deus, a quem as bênçãos deles são aplicadas. Foi
com o povo escolhido de Deus em Cristo que o pacto da graça foi feito
originalmente. Conforme a eleição da
graça, as bênçãos espirituais são dispensadas aos filhos dos homens (Sl 89:3;
Ef 1:3,4). Eles estavam sob a antiga dispensação, desde o princípio do mundo;
eram a semente da mulher em distinção a semente da serpente; eram o
remanescente segundo a eleição da graça entre os judeus, os filhos da promessa
que foram contados como descendência. Os eleitos entre os homens sempre
obtiveram as bênçãos do pacto em todas
as época e, sob a presente dispensação, mais abundantemente e em maior número.
1e. Nas bênçãos dele, elas
são as mesmas em ambas as administrações: salvação e redenção por Cristo são as
grandes bênçãos realizadas em primeiro lugar em ambas as dispensações (2 Sm 23:
5; Hb 9:15); Justificação pela justiça de Cristo, que a igreja do Antigo
Testamento tinha conhecimento e fé, bem como a do Novo Testamento (Is 45:
24,25; Rm 3: 21-23); O perdão dos pecados por meio da fé em Cristo que todos os
profetas deram testemunho e os santos do passado, como agora, têm confortável
aplicação dele (Sl 32: 1,5; Is 43:25; Miquéias 7:18; Atos 10:43); regeneração, circuncisão
espiritual e santificação que os homens se tornaram participantes tanto na
primeira como na segunda administração
do pacto (Dt 30: 6; Fp 3:3); a vida eterna foi dada a conhecer nos escritos do
Antigo Testamento, bem como nas do Novo, isso era acreditado, procurado e esperado
pelos santos da antiga como da última dispensação (João 5:39; Hb 11: 10,16; Jó
19: 26,27). Em poucas palavras: eles e nós comemos a mesma comida espiritual, bebemos
a mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra que os seguia, e a pedra era
Cristo (1 Co 10: 3,4).
2. Em segundo lugar, há discordância em algumas coisas entre estas
duas administrações do Pacto da Graça.
2a. Os santos da
primeira administração aguardavam com
expectativa a Cristo que estava por vir e as coisas boas que viriam com ele, por isso estavam esperando,
esperando e desejando para o gozo delas. No âmbito da segunda e nova
administração, os crentes olham para
trás, para Cristo como já vindo, ante
cujos olhos ele está evidentemente estabelecido na palavra e ordenanças, como
crucificado e morto; eles olham para as bênçãos da aliança através dele como trazidas;
para a paz, o perdão, expiação, justiça, redenção e salvação, como operada e
satisfeita.
2b. Há uma maior
clareza e evidência das coisas sob a segunda do que sob a primeira. A lei era
apenas uma sombra de coisas boas que viriam; não fazia mais do que exibir pelo
menos a imagem delas vagamente. A obscuridade da antiga dispensação foi representada pelo véu sobre o rosto de Moisés quando
ele falou aos filhos de Israel; de modo que não podiam ver até o fim o que
viria a ser abolido. Os crentes sob a atual dispensação , com os rostos descobertos, com os rostos desvendados, como um espelho, contemplam a glória do
Senhor clara e abertamente (Hb 10: 1; 2 Co 3: 13,18) . Comparativamente, na primeira dispensação era noite e na segunda,
pleno dia. O dia superara a noite, as sombras foram dissipadas
e deixaram de existir .
2c. Há mais um espírito
de liberdade e menos de escravidão sob a uma
do que sob a outra. Os santos sob a antiga pouco diferiam dos servos, estando em servidão
debaixo dos rudimentos do mundo. Na nova dispensação os homens são livres em Cristo, não recebendo o espírito de escravidão novamente para temer,
mas o espírito de adoção que clama: Abba, Pai ! Um
espírito livre que traz liberdade com ele. Por essa razão as duas administrações do pacto
são representadas uma por Agar, a escrava, porque ela gera para servidão, e
aqueles que estavam sob ela viviam em
tal estado e a outra, por Sara, a mulher livre, um emblema da Jerusalém que é de cima,
a mãe de todos nós (Gl 4:1-3,24-26; Rm 8:15 ).
2d. Há um derramamento maior
e mais abundante do Espírito e de seus dons e graças sob uma do que sob a outra. Maiores medidas de
graça, luz e conhecimento espiritual foram prometidos para segunda e nova administração da aliança. Conseqüentemente,
a graça em toda a sua plenitude e
"verdade", em toda a sua clareza e evidência "vieram por Jesus Cristo" (João
1:17; cf. Jr 31: 31-34).
2e. Esta última
administração do pacto se estende a mais pessoas do que a primeira. Os gentios
eram estranhos aos pactos da promessa, não tinham conhecimento nem a aplicação das promessas e
bênçãos do pacto da graça, apenas em pequeno número: um aqui e outro ali. Agora
a bênção de Abraão veio sobre os gentios e eles são co-herdeiros da mesma graça
e privilégios e participantes das promessas em Cristo pelo evangelho (Ef 2:12;
3:6; Gl 3:14) .
2f. A atual
administração do pacto da graça permanecerá até o fim do mundo; ela nunca será
sucedida por outra, pois aquilo que permanece, em distinção do que é
temporário, excede em glória. A lei
cerimonial, sob a qual o pacto anterior fora administrado, era "até o
tempo da reforma", até que Cristo e seu precursor- João- viessem: "A lei e os profetas
duraram até João" (Veja 2 Coríntios 3:11; Hb 9:10; Lucas 16:16).
2g. As ordenanças delas
são diferentes. O primeiro pacto tinha ordenanças divinas de culto; mas aquelas
comparativamente com as atuais eram mundanas e , na melhor das hipóteses, tipos,
sombras e fracas representações das coisas divinas e
espirituais; eram para permanecer por pouco tempo, sendo depois abaladas e removidas. Nas atuais ordenanças,
Cristo e as bênçãos de sua graça estão mais claros e evidentes. Elas devem permanecer
até a segunda vinda de Cristo. (Hb 9:
1,10; 12:27).
2h. Embora as promessas
e bênçãos da graça sob ambas as administrações sejam as mesmas, mas exibidas de
maneira diferente, sob a dispensação anterior, eram mais obscurecidas pelas
coisas terrenas, como pela terra de Canaã e as misericórdias exteriores dele.
Sob a atual dispensação são mais espirituais,
celestiais e divinas; são mais livres e desobstruídas de todas as condições
chamadas de "melhores promessas". A atual administração da aliança
tem um "melhor testamento”, pois Deus tendo "fornecido" para os santos
do Novo Testamento "coisa
melhor", os santos do Antigo Testamento não puderam ser "aperfeiçoados" sem eles (Hb 8:
6; 7:22; 11:40).
Fonte:
Providence Baptist Ministries
Tradução:
Luciano de Oliveira

Nenhum comentário:
Postar um comentário