quarta-feira, 22 de julho de 2015

Manifestação e Administração do Pacto da Graça – John Gill

Tendo tratado do pecado, da queda dos nossos primeiros pais, da violação do pacto de obras por eles, dos tristes efeitos desse ato para si mesmos, bem como das conseqüências deploráveis ​​do mesmo a sua posteridade; da imputação do seu pecado e do surgimento de uma natureza corrupta neles; dos pecados e transgressões reais que fluem dali da punição devida a eles, apresento agora a  graça às transgressões desse homem caído, a sua aplicação e bênçãos  para a semente espiritual de Cristo entre os descendentes de Adão.

Havendo considerado o pacto de graça em uma antiga parte deste trabalho como um acordo eterno na eternidade entre as três pessoas da divindade: Pai, Filho e Espírito e como cada pessoa concordou em assumir sua parte na economia da salvação do homem, agora considerarei  a administração dessa aliança nos vários períodos de tempo, desde o princípio do mundo até o fim de tudo. O pacto da graça, do qual Cristo é a substância, é uno e  igual em todos os tempos; Cristo fora dado para fazer  "um pacto com o povo", com  todo o povo de Deus, tanto judeus como gentios;  Ele é  "o mesmo" no "ontem" do Antigo Testamento e  no "hoje" do Novo Testamento e  será para sempre; Ele é "o caminho, a verdade  e a vida", o único caminho verdadeiro para a vida eterna; nunca houve qualquer outro modo a conhecer aos homens desde a queda de Adão; nenhum outro nome debaixo do céu foi dado ou será dado aos homens no qual podem ser salvos. Os patriarcas antes do dilúvio e depois, perante a lei de Moisés e sob ela, antes da vinda de Cristo, todos os santos são salvos da mesma forma, ou seja, "pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo". Essa  é a graça do pacto, exibida em momentos diferentes e de muitas maneiras. Pois, embora o pacto seja apenas um, há diferentes administrações dele; particularmente duas:  uma antes da vinda de Cristo e outra após ela, que estabelecem as bases para a distinção da "primeira" e "segunda", o "velho" e o "novo" pacto observado pelo autor da epístola aos Hebreus (Hb 8: 7,8,13; 9 : 1,15; 12:24). Pela primeira e antiga aliança não se entende o pacto de obras feito com Adão e que fora quebrado e revogado há muito tempo, uma vez que o apóstolo está falando de um pacto que envelheceu  e está próximo a desaparecer em seu tempo. O pacto de obras não fora o primeiro e  nem é a mais antiga aliança, pois sendo o pacto da graça um acordo eterno, fora antes dele. Na realidade o apóstolo está a se referir a primeira e mais antiga administração do pacto da graça que começara a atuar  desde a queda de Adão, quando o pacto de obras fora quebrado, até a vinda de Cristo, quando fora substituído e ab-rogado por outra administração da mesma aliança  chamada, portanto, de  "segundo" ou  "novo" pacto. Aquele que comumente chamamos de dispensação do Velho Testamento e outra dispensação do Novo Testamento, para os quais parece haver algum fundamento em 2 Coríntios 3: 6,14 e Hebreus 9:15. Esses dois convênios, ou melhor, duas administrações do mesmo pacto, são alegoricamente representadas pelas duas mulheres: Agar e Sara, a escrava e a  livre (Gl 4: 22-26), que descrevem adequadamente a natureza e a diferença deles. Antes de eu prosseguir mais adiante, vou apenas destacar a concordância e discordância das duas administrações do pacto da graça.

1. Em primeiro lugar, a concordância  que existe entre elas.

1a. Elas concordam em causa eficiente: Deus. O pacto da graça na sua constituição original na eternidade  é de Deus, por isso é chamado de seu pacto, que está sendo feito por ele: "Fiz um pacto – não quebrarei minha aliança" ( Sl 89: 3,34) . Sempre que qualquer exposição ou manifestação desta aliança foi feita a qualquer um dos patriarcas, como a Abraão, Davi etc, ela é atribuída a Deus: "Eu farei minha aliança- ele estabeleceu  comigo uma aliança eterna" (Gn 17: 2; 2 Sm 23: 5). O novo pacto  ou nova administração do  mesmo também ocorrer desse modo: "Eu estabelecerei uma nova aliança  etc. ( Hb 8: 8).

1b. Em motivo de causa: a misericórdia soberana e a  livre graça de Deus, o que levou Deus a fazer o pacto da graça no princípio (Sl 89: 2,3).Todas as exposições sob a dispensação anterior são uma rica exibição do mesmo, por isso é chamado  a "misericórdia com os pais" em sua "santa aliança" (Lucas 1:72). Isso  fora expandido com a vinda de Cristo, a qual é atribuída a "a misericórdia do nosso Deus", onde  "graça" e "verdade" em grande abundância  são ditas  vir com ele; na qual os nomes do pacto da graça, sob a dispensação do evangelho, é chamado em distinção do mesmo sob a dispensação mosaica (Lucas 1:78; Jo 1:17).

1c. Com o mediador: Cristo. Há um só mediador do pacto de graça em ambas as dispensações. Mesmo sob a dispensação anterior Cristo fora revelado como a semente da mulher que iria esmagar a cabeça da serpente e faria expiação através de sua morte e sofrimentos, representados pelas sacrifícios expiatórios nos termos da lei, por Siló , O Pacificador, o Conselheiro, o Redentor vivo de Jó e de todos os crentes do Velho Testamento. Moisés na verdade era um mediador, mas ele era apenas um tipo. Há apenas "um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem"; nunca houve qualquer outro; ele é o "mediador de uma nova aliança" (1 Tm 2: 5; Hb 12:24).

1d. Com os  indivíduos destes pactos ou administrações dos pactos da graça: os eleitos de Deus, a quem as bênçãos deles são aplicadas. Foi com o povo escolhido de Deus em Cristo que o pacto da graça foi feito originalmente. Conforme  a eleição da graça, as bênçãos espirituais são dispensadas aos filhos dos homens (Sl 89:3; Ef 1:3,4). Eles estavam sob a antiga dispensação, desde o princípio do mundo; eram a semente da mulher em distinção a semente da serpente; eram o remanescente segundo a eleição da graça entre os judeus, os filhos da promessa que foram contados como descendência. Os eleitos entre os homens sempre obtiveram as  bênçãos do pacto em todas as época e, sob a presente dispensação, mais abundantemente e em maior número.

1e. Nas bênçãos dele, elas são as mesmas em ambas as administrações: salvação e redenção por Cristo são as grandes bênçãos realizadas em primeiro lugar em ambas as dispensações (2 Sm 23: 5; Hb 9:15); Justificação pela justiça de Cristo, que a igreja do Antigo Testamento tinha conhecimento e fé, bem como a do Novo Testamento (Is 45: 24,25; Rm 3: 21-23); O perdão dos pecados por meio da fé em Cristo que todos os profetas deram testemunho e os santos do passado, como agora, têm confortável aplicação dele (Sl 32: 1,5; Is 43:25; Miquéias 7:18; Atos 10:43); regeneração, circuncisão espiritual e santificação que os homens se tornaram participantes tanto na primeira como na  segunda administração do pacto (Dt 30: 6; Fp 3:3); a vida eterna foi dada a conhecer nos escritos do Antigo Testamento, bem como nas do Novo, isso era acreditado, procurado e esperado pelos santos da antiga como da última dispensação (João 5:39; Hb 11: 10,16; Jó 19: 26,27). Em poucas palavras: eles e nós comemos a mesma comida espiritual, bebemos a mesma bebida espiritual, porque bebiam da pedra que os seguia, e a pedra era Cristo (1 Co 10: 3,4).

2. Em segundo lugar, há  discordância em algumas coisas entre estas duas administrações do Pacto da Graça.

2a. Os santos da primeira administração  aguardavam com expectativa a Cristo que estava por vir  e as coisas boas que  viriam com ele, por isso estavam esperando, esperando e desejando para o gozo delas. No âmbito da segunda e nova administração, os crentes olham para trás, para Cristo como  já vindo, ante cujos olhos ele está evidentemente estabelecido na palavra e ordenanças, como crucificado e morto; eles olham para as bênçãos da aliança através dele como trazidas; para a paz, o perdão, expiação, justiça, redenção e salvação, como operada e satisfeita.

2b. Há uma maior clareza e evidência das coisas sob a segunda do que sob a primeira. A lei era apenas uma sombra de coisas boas que viriam; não fazia mais do que exibir pelo menos a imagem delas vagamente. A obscuridade da antiga dispensação foi  representada pelo véu sobre o rosto de Moisés quando ele falou aos filhos de Israel; de modo que não podiam ver até o fim o que viria a ser abolido. Os crentes sob a atual dispensação , com os rostos descobertos, com os rostos desvendados, como um espelho, contemplam a glória do Senhor clara e abertamente (Hb 10: 1; 2 Co 3: 13,18) . Comparativamente,  na primeira dispensação era noite e na segunda,  pleno dia.  O dia superara a noite, as sombras foram dissipadas e deixaram de existir .

2c. Há mais um espírito de liberdade e menos de escravidão sob a uma  do que sob a outra. Os santos sob a antiga  pouco diferiam dos servos, estando em servidão debaixo dos rudimentos do mundo. Na nova dispensação os homens são livres em  Cristo, não recebendo o espírito de escravidão novamente para temer, mas o espírito de adoção que clama: Abba, Pai !  Um  espírito livre que  traz  liberdade com ele. Por  essa razão as duas administrações do pacto são representadas uma por Agar, a escrava, porque ela gera para servidão, e aqueles que estavam  sob ela viviam em tal estado e a outra, por Sara, a mulher livre, um emblema da Jerusalém que é de cima, a mãe de todos nós (Gl 4:1-3,24-26; Rm 8:15 ).

2d. Há um derramamento maior e mais abundante do Espírito e de seus dons e graças  sob uma do que sob a outra. Maiores medidas de graça, luz e conhecimento espiritual foram prometidos para  segunda e nova administração da aliança. Conseqüentemente,  a graça em toda a sua plenitude e "verdade", em toda a sua clareza e evidência  "vieram por Jesus Cristo" (João 1:17; cf. Jr  31: 31-34).

2e. Esta última administração do pacto se estende a mais pessoas do que a primeira. Os gentios eram estranhos aos pactos da promessa, não tinham  conhecimento nem a aplicação das promessas e bênçãos do pacto da graça, apenas em pequeno número: um aqui e outro ali. Agora a bênção de Abraão veio sobre os gentios e eles são co-herdeiros da mesma graça e privilégios e participantes das promessas em Cristo pelo evangelho (Ef 2:12; 3:6; Gl 3:14) .

2f. A atual administração do pacto da graça permanecerá até o fim do mundo; ela nunca será sucedida por outra, pois aquilo que permanece, em distinção do que é temporário, excede em glória.  A lei cerimonial, sob a qual o pacto anterior fora administrado, era "até o tempo da reforma", até que Cristo e seu precursor-  João- viessem: "A lei e os profetas duraram até João" (Veja 2 Coríntios 3:11; Hb 9:10; Lucas 16:16).

2g. As ordenanças delas são diferentes. O primeiro pacto tinha ordenanças divinas de culto; mas aquelas comparativamente com as atuais eram mundanas e , na melhor das hipóteses, tipos,  sombras e  fracas representações das coisas divinas e espirituais; eram para permanecer por pouco tempo, sendo  depois abaladas e removidas. Nas atuais ordenanças, Cristo e as bênçãos de sua graça estão mais claros e evidentes. Elas devem permanecer  até a segunda vinda de Cristo. (Hb 9: 1,10; 12:27).

2h. Embora as promessas e bênçãos da graça sob ambas as administrações sejam as mesmas, mas exibidas de maneira diferente, sob a dispensação anterior, eram mais obscurecidas pelas coisas terrenas, como pela terra de Canaã e as misericórdias exteriores dele. Sob a atual dispensação são  mais espirituais, celestiais e divinas; são mais livres e desobstruídas de todas as condições chamadas de "melhores promessas". A atual administração da aliança tem um "melhor testamento”, pois  Deus tendo "fornecido" para os santos do Novo Testamento  "coisa melhor", os santos do Antigo Testamento não puderam  ser "aperfeiçoados" sem eles (Hb 8: 6; 7:22; 11:40).


Fonte: Providence Baptist Ministries
Tradução: Luciano de Oliveira

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