quarta-feira, 29 de julho de 2015

O Dia do Senhor – John Gill


1e [...] o primeiro dia da semana  ,ou dia do Senhor , é agora o dia de adoração observado pela generalidade dos cristãos , não em virtude de qualquer preceito positivo ou ordem expressa de Cristo , pois não há nenhum . Alguns  grandes e bons homens  como Calvino [21], Beza [ 22], Zanchius [23] e outros têm sido de opinião que o domingo foi uma questão de pura escolha  nas primeiras igrejas  que, no uso de sua liberdade cristã, foram deixadas livres  para  escolher quando e onde adorar , fixando esse dia como o mais adequado e apropriado substituto do antiquado sábado judaico . Sou inclinado a concordar com isso, mas não  posso  deixar a opinião  que a prática e exemplos do apóstolos de Cristo , homens inspirados pelo Espírito Santo , que escreveram , ensinaram  e praticaram  " os mandamentos do Senhor" (Mateus 28:20 ;  1 Coríntios 14:37), não carregem em si a natureza , a força  e a obrigação de um preceito . Mesmo se não existisse uma ordem expressa para o batismo infantil , mas se tivesse sido tolerada , como não foi , pela prática e exemplos dos apóstolos , julgariamos  que seria nossa obrigação seguir  essa prática e exemplos.  Sobre o primeiro dia da semana  parece ser

1e1 . O dia mais adequado e apropriado para o culto divino, pois  como  a mudança do dia de adoração era necessário ,  havendo uma nova dispensação  e novas ordenanças de culto divino  e para testemunhar ao mundo a nossa fé na  morte e ressurreição  de Cristo dos mortos , não  havia dia melhor  como o primeiro dia da semana para isso.  A igreja cristã nunca passou sem  um dia de adoração , desde cedo os  apóstolos se reuniam naquele primeiro dia da semana em que Cristo ressuscitou dos mortos , o que mostra com mais propriedade e idoneidade a prática deste dia como um dia de descanso: Cristo, assim que terminou  o seu  grande trabalho de redenção e salvação por nós,   descansou das suas obras  como Deus das suas. Ainda pode ser  observado que após a ressurreição de nosso Senhor dos mortos , nunca é lido ao longo de todo o Novo Testamento   que qualquer assembléia cristã  mantivesse outro dia para adoração além do primeiro dia da semana.

1e2 . A observação deste dia é confirmada pela prática e exemplos dos discípulos de Cristo  e das primeiras igrejas,pois ,

1e2a . No mesmo dia em que Cristo ressuscitou dos mortos, que foi o primeiro dia da semana, os discípulos estavam reunidos,  Cristo apareceu no meio deles  e com sua graciosa presença e instruções divinas  aprovou-os por estarem assim juntos e encorajou-os a estarem  assim oito dias depois disso. Agora se não houve um sétimo dia anterior a este, os discípulos não  estariam reunidos com Cristo  naquele dia ( João 20:19-29) .

1e2b . Os apóstolos reuniram-se no dia de Pentecostes, que foi o primeiro dia da semana, como já foi provado por muitos escritores. Pouco antes de sua ascensão , nosso Senhor ordenou a seus discípulos  a esperar em Jerusalém a promessa do Espírito. A partir do momento de sua ascensão e antes de Pentecostes,  já havia se passado dois sábados do sétimo  dia , no entanto não parece que eles se reuniram em qualquer um deles , mas apenas no dia de Pentecostes , conforme a  ordem e a promessa da descida do Espírito sobre eles. Portanto, parece que eles estavam esperando por  aquele dia, na expectativa de ter a promessa cumprida , pois  “ chegado o dia de Pentecostes , estavam todos reunidos no mesmo lugar" (Atos 2:01 ).  Este  dia foi homenageado e confirmado pelo derramamento  miraculoso do Espírito Santo, pela pregação do evangelho aos homens de todas as nações e pela conversão e batismo de três mil pessoas.
  

1e2c . Foi no primeiro dia da semana que os discípulos em Trôade se reuniram para partir o pão, quando Paulo pregou -lhes (Atos 20:7 ) . Agora ele estava ali  sete dias antes , de modo que houve naquela época um sábado do sétimo dia dos judeus , mas não parece que ele e os discípulos  se reuniram naquele dia , mas apenas no primeiro , que era o dia religioso de adoração, do  partir o pão e da  celebração da Ceia do Senhor.

1e2d . O apóstolo Paulo deu ordens à igreja de Corinto, assim como ele tinha dado às igrejas da Galácia , para fazer  uma coleta para os santos pobres no primeiro dia da semana , quando se reuniam ( 1 Coríntios. 16:1-2), o  que mostra que era habitual se reunirem naquele dia. Isso também era uma ordem  ou renovação e confirmação de uma ordem  para  se reunirem naquele dia, pois  como seria feita a cobrança a eles , aquele dia era o mais adequado , uma vez que reunidos  para o culto divino  estariam  com seus corações mais  aquecidos e revigorados  pela  palavra e ordenanças . Sobre a passagem, Beza  em uma cópia antiga, depois de " o primeiro dia da semana " adiciona  à guisa de explicação , "dia do Senhor "  , e  assim interpretam outros   [ 24] e também Jerônimo [25].

1e2e . Esse dia é chamado por João  "dia do Senhor" quando ele diz: "Eu fui arrebatado no espírito no dia do Senhor" (Ap 1:10) .Por  suas palavras infere-se  que  esse era  um dia muito comum, assim chamado porque Cristo nesse dia  ressuscitou dentre os mortos  e em comemoração a isso foi mantida a pregação do evangelho e administração das ordenanças. Quando  João , um exilado em Patmos , escreveu seu Apocalipse, Já se haviam passado 60 anos da ressurreição de Cristo,  mas  esse dia  ainda era observado como um dia de culto religioso nos primeiros séculos do cristianismo. Inácio [26] , que morreu  oito ou dez anos depois do apóstolo João , diz: " Mantenhamos  o dia do Senhor , no qual nossa vida se levantou .”  Justino Mártir [27] alguns anos depois dele  diz que  no dia comumente chamado domingo        ( pelos pagãos , ou seja, o primeiro dia da semana ), todos se reuniam na cidade para o culto divino . Dionísio de Corinto  fala sobre o dia do Senhor como um dia sagrado [28].  Clemente de Alexandria [29] , no mesmo século , observa que aquele que verdadeiramente mantém o dia do Senhor glorifica a ressurreição do Senhor. Tertuliano [30] , no início do terceiro século, fala dos atos do culto público , como "Dia de solenidades ao Senhor" . E, no mesmo século, Orígenes [31] e Cipriano [32] fazem  menção ao primeiro dia da semana  como "dia do Senhor" e  tempo de adoração , e assim tem sido em todos os tempos até o presente momento .  Agora certamente pode  parecer sem escrúpulos a observância do primeiro dia da semana  como dia de adoração, uma vez que não parece que um sábado do sétimo dia fora ordenado a Adão no seu estado de inocência , nem aos patriarcas como já fora observado, e que a primeira menção do sábado foi  na doação do maná , obrigando os judeus , somente eles  a guardá-lo , ratificado pelo quarto mandamento do Decálogo , já revogado, em  que o primeiro dia da semana, ou dia do Senhor , é substituído em seu lugar como o dia de adoração pela prática e exemplo dos apóstolos.  Mas se  depois de tudo  o quarto mandamento  com a moral dele  paira  sobre a mente de qualquer  pessoa   como um mandamento que  ainda está em vigor , apesar de não ser verdadeiro isso, o que nos traria de volta ao judaísmo , a um estado de servidão , pois  permitiria que toda a moralidade fosse atribuída a um dia , dele não se  requer mais do que isso :  um descanso no sétimo dia  depois de seis dias de trabalho não contados da criação do mundo , pois o maior matemático do mundo não podia  nos assegurar isso;  nem de qualquer dia ou hora definidos  quando começam os  sete dias da semana  ou aquilo que chamam de nomes para os dias da semana,  mas a regra é apenas esta: “ Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus.” Essa contagem pode ser feita  de  qualquer lugar em que um  homem viva , quer seja na Europa ou na América , na Grã-Bretanha , ou nas  Índias Ocidentais, pois  todo homem é capaz , não precisa ser um hábil matemático,  de contar seis dias  a partir do momento em que faz uso de sua pá ou de seu arado.   Não importa em qual lado do globo esteja vivendo, qualquer  homem é capaz de fazer essa conta ;  nem é a observação do primeiro dia qualquer objeção a esta regra , já que é depois de seis dias de trabalho:  o primeiro dia, o dia em que Cristo ressuscitou , mantido por seus discípulos,  foi após os seis dias de trabalho,  pois  o sábado dos judeus ser entre isso e os seis dias de trabalho não pode haver nenhuma objeção , já que era um dia de descanso  e não de trabalho, de modo que para o   tempo havia dois dias consecutivos de descanso , após os seis dias de trabalho , quando  o sabado judaico retrocedeu e o domingo  o sucedeu  regularmente, como se faz agora . Em suma, a única regra segura para seguirmos  é  a  dos apóstolos: Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz  (Rm 14:6) ou assim ele deve fazer. O que me leva a observar,


2.  Que  o dia do Senhor deve ser considerado ou observado não para nós mesmos, para o nosso próprio lucro e prazer, mas para o Senhor, para o seu serviço e glória.

2a. Não como um sábado judaico, com o mesmo rigor e gravidade a ponto de não querer acender um fogo, preparar qualquer tipo de comida ou viajar mais longe da jornada de um sábado.
  
2b. Não devemos fazer nenhum trabalho neste dia , isto é, qualquer atividade comercial, industrial ou profissional como nos outros dias; ao contrário, devemos fazer obras de piedade, misericórdia e caridade , uma vez que é necessário para preservação da vida, do conforto e da saúde nossa e dos outros.

2c. O dia do Senhor é para ser empregado especialmente em atos do culto público, isto é, na pregação, no ouvir a palavra pregada, na oração e na preparação dos louvores. 


2d. Em atos privados de devoção, tanto antes quanto após o culto público; como já foi observado, quando a palavra estiver sendo pregada.

2e. O dia todo, de manhã à noite, deve ser observado. A primeira parte do dia não deve ser gasta com o sono, nem qualquer outra parte com os negócios próprios de um homem: o lançar-se as suas contas, o ler livros seculares, o entreter-se em prazeres carnais, recreações, jogos, esportes, o andar nos campos e em viagens desnecessárias. Mas além da adoração pública, os homens devem comparecer à leitura das Escrituras, à oração, à meditação, às conferências cristãs, e em tais exercícios piedosos eles deveriam passar o dia inteiro.


NOTAS:

[22] Confess. Fidei. c. 5. s. 41.

[23] In Precept. 4. tom. 4. p. 670.

[24] Vid. Mill. in loc.

[25] Adv. Viglantium Oper. tom. 2. fol. 42.

[26] Ad Magnes. p. 35.

[27] Apolog. 2. p. 98, 99.

[28] Apud Euseb. l. 4. c 23. Irenaeus, l. 5. c. 24.

[29] Stromat. l. 7. p. 744.

[30] Deut. Anima, c. 9.

[31] Homil. 5. in Esaiam, fol. 104. 3. et alibi.

[32] Ep. 33. p. 66. & Ep. 58. p. 138.


Fonte: In Das Circunstâncias do Culto Público Quanto ao Tempo e Lugar

Tradução: Luciano de Oliveira


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