“Temos nos esforçado neste lugar, com a ajuda de Deus, para
conciliar a verdade desta passagem: Nada se aborrece de quanto fez, com a
outra: Amei a Jacó, mas me aborreci de Esaú.
Em conseqüência, se aborreceu Deus de Esaú porque o havia feito
vaso para desonra e o mesmo ceramista fez um vaso para usos nobres e outro para
usos vis, como pode ser verdade que nada se aborrece de quanto fez ? Pois se
aborreceu de Esaú, a quem fez vaso de desonra.
Esta dificuldade se resolve tendo em conta que Deus é o artífice
de todas as criaturas. Agora bem, toda criatura de Deus é boa, e todo homem,
enquanto homem, é criatura de Deus, mas não enquanto é pecador. É, pois, Deus
criador do corpo e alma do homem. Nenhuma dessas coisas é má nem a aborrece
Deus, porque não se aborrece de nenhuma coisa que fez. Mas a alma se avantaja
em excelência ao corpo; e Deus, superior ao corpo e alma, porque é o criador e
formador de ambas as coisas, não se aborrece do homem mais do que o pecado. E o
pecado é uma desordem e perversidade, ou seja, uma separação de Deus, que é o
Criador supremo, e o sustentador das criaturas inferiores. Não se aborreceu
Deus de Esáu enquanto homem, senão como pecador. Como se diz também do Senhor:Ele
veio para os seus, mas os seus não o receberam. E aos judeus disse o mesmo: Vós
não me ouvis, porque não sois de Deus. Por que lhes chama seus e como diz deles
que não são de Deus, senão porque em primeiro lugar olha sua feitura de homem,
que recebida Dele, e em segundo lugar seu caráter de pecadores o que condenava?
Todavia os mesmos são ao mesmo tempo homens e pecadores: homens por criação,
pecadores por sua própria vontade.
Logo
o fato de amar Jacó significava que ele não era pecador? Não; mas Deus amou
nele não a culpa que manchava, senão a graça que lhe deu. Pois também Cristo
morreu pelos ímpios, não para que continuassem
ímpios, senão para que, purificados de sua impiedade, se convertessem ao
crer naquele que justifica o ímpio, porque Deus se aborrece da impiedade. Assim
em alguns a castiga condenando-os, em
outros a destrói justificando-os. Ainda que o número dos ímpios que não
justifica faz vasos de desonra, não por isso se aborrece deles como sua própria
feitura, mas enquanto ímpios, odeia-os. Não obstante enquanto são vasos, para
algum serviço se destinam, ou seja, para justa ordenação servem ao proveito dos
vasos de misericórdia. Não se aborrece
deles, pois, enquanto são homens nem enquanto são vasos, ou seja, não se
aborrece deles nem sua obra da criação nem sua obra da ordenação providencial,
pois nada se aborrece de quanto fez.
E
ao fazê-los vasos de condenação, leva em consideração o serviço que prestam
para a correção dos demais. Odeia neles a iniqüidade que ele não a fez; como o
juiz que se aborrece do roubo do homem ,
mas não da condenação do ladrão aos trabalhos forçados nas minas. O primeiro
faz o ladrão; o segundo, o juiz. Analogamente, Deus, fazendo da massa dos ímpios
vasos de condenação, não se aborrece do que faz, ou seja, a obra de sua
ordenação penal para os réprobos, com que ajuda a salvar-se aos que favorece
com sua misericórdia.”
Fonte:
Questões Diversas a Simpliciano. Duas Questões sobre a Carta aos Romanos- Livro
I
Tradução:Luciano de Oliveira

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