domingo, 6 de julho de 2014

Deus Ama ou Odeia os Réprobos ? Santo Agostinho

“Temos nos esforçado neste lugar, com a ajuda de Deus, para conciliar a verdade desta passagem: Nada se aborrece de quanto fez, com a outra: Amei a Jacó, mas me aborreci de Esaú.

Em conseqüência, se aborreceu Deus de Esaú porque o havia feito vaso para desonra e o mesmo ceramista fez um vaso para usos nobres e outro para usos vis, como pode ser verdade que nada se aborrece de quanto fez ? Pois se aborreceu de Esaú, a quem fez vaso de desonra.

Esta dificuldade se resolve tendo em conta que Deus é o artífice de todas as criaturas. Agora bem, toda criatura de Deus é boa, e todo homem, enquanto homem, é criatura de Deus, mas não enquanto é pecador. É, pois, Deus criador do corpo e alma do homem. Nenhuma dessas coisas é má nem a aborrece Deus, porque não se aborrece de nenhuma coisa que fez. Mas a alma se avantaja em excelência ao corpo; e Deus, superior ao corpo e alma, porque é o criador e formador de ambas as coisas, não se aborrece do homem mais do que o pecado. E o pecado é uma desordem e perversidade, ou seja, uma separação de Deus, que é o Criador supremo, e o sustentador das criaturas inferiores. Não se aborreceu Deus de Esáu enquanto homem, senão como pecador. Como se diz também do Senhor:Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam. E aos judeus disse o mesmo: Vós não me ouvis, porque não sois de Deus. Por que lhes chama seus e como diz deles que não são de Deus, senão porque em primeiro lugar olha sua feitura de homem, que recebida Dele, e em segundo lugar seu caráter de pecadores o que condenava? Todavia os mesmos são ao mesmo tempo homens e pecadores: homens por criação, pecadores por sua própria vontade.

Logo o fato de amar Jacó significava que ele não era pecador? Não; mas Deus amou nele não a culpa que manchava, senão a graça que lhe deu. Pois também Cristo morreu pelos ímpios, não para que continuassem  ímpios, senão para que, purificados de sua impiedade, se convertessem ao crer naquele que justifica o ímpio, porque Deus se aborrece da impiedade. Assim em alguns a castiga condenando-os,  em outros a destrói justificando-os. Ainda que o número dos ímpios que não justifica faz vasos de desonra, não por isso se aborrece deles como sua própria feitura, mas enquanto ímpios, odeia-os. Não obstante enquanto são vasos, para algum serviço se destinam, ou seja, para justa ordenação servem ao proveito dos vasos de misericórdia.  Não se aborrece deles, pois, enquanto são homens nem enquanto são vasos, ou seja, não se aborrece deles nem sua obra da criação nem sua obra da ordenação providencial, pois nada se aborrece de quanto fez.

E ao fazê-los vasos de condenação, leva em consideração o serviço que prestam para a correção dos demais. Odeia neles a iniqüidade que ele não a fez; como o juiz  que se aborrece do roubo do homem , mas não da condenação do ladrão aos trabalhos forçados nas minas. O primeiro faz o ladrão; o segundo, o juiz. Analogamente, Deus, fazendo da massa dos ímpios vasos de condenação, não se aborrece do que faz, ou seja, a obra de sua ordenação penal para os réprobos, com que ajuda a salvar-se aos que favorece com sua misericórdia.”


Fonte: Questões Diversas a Simpliciano. Duas Questões sobre a Carta aos Romanos- Livro I
Tradução:Luciano de Oliveira


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