1. Mas não podemos deixar de tratar de um assunto
observado de modo variável nas igrejas, como se não fosse questão definida:
devem ou não as virgens usar véu?
2. Aqueles que permitem às virgens andar com a cabeça
descoberta, parecem basear-se no fato de que o Apóstolo, ao prescrever a
obrigatoriedade do véu, designa as mulheres em geral, não as virgens
nomeadamente. Paulo, dizendo mulheres, não se teria referido ao sexo feminino
em geral, mas a uma categoria de pessoas, as mulheres casadas (cf. 1Cor
11,6-15).
3. Se, com efeito, nomeasse o sexo feminino em geral,
suas prescrições abrangeriam toda mulher, sem exceção. Mas, como se refere só a
uma categoria, a omissão exclui a outra.
4. Podia, com efeito - dizem alguns - ou referir-se às
virgens, de modo especial ou, senão, falar de mulheres em geral, como um todo.
***
1. Os que fazem tal concessão, devem repensar o sentido
da própria palavra. Que significa o termo mulher, desde as primeira letras da
Sagrada Escritura? É o nome genérico do sexo feminino, e não de uma categoria
especial. Assim é que Deus chamou Eva de mulher, já antes que ela se unisse ao
homem (cf. Gn 2,21-25; 5,2). Mulher para o gênero globalmente, e esposa para
determinada categoria, de modo especial. Se, pois, ele dá o nome de mulher a
Eva, mesmo ainda inupta, o termo mulher se tornou aplicável também à virgem.
Não é, pois, de se admirar que o Apóstolo, movido pelo Espirito que inspira toda
a Sagrada Escritura, inclusive no livro do Gênesis, tenha usado a mesma
palavra, isto é, mulher, que, a exemplo de Eva, convém igualmente a uma virgem.
2. O restante, aliás, concorda com isso. Pelo fato de não
nomear as virgens, ao contrário do que faz ao ensinar sobre o matrimônio (cf.
1Cor 7,34), Paulo indica suficientemente que se refere a todas as mulheres e ao
sexo feminino em geral, sem fazer distinção entre mulher e virgem, que de todo
não cita. Aquele que em outro lugar se lembrou de distinguir, quando a
diferença o exigia (e ele usou dois vocábulos diferentes para distinguir as
duas categorias), não quer que se veja diferença, quando ele não distingue nem
se refere a duas categorias.
3. Que dizer do fato de que na língua grega, em que Paulo
escreve suas cartas, é costume usar o termo gynaikas (mulheres) em vez de
theleías, em latim feminas? Se, deste modo, aquele termo é habitualmente usado
para indicar todo o sexo feminino, e pode ser traduzido em latim por femina, é
claro que, dizendo gynaika (mulher), quis nomear todo o sexo feminino, no qual
estão compreendidas igualmente as virgens.
4. Mas há um pronunciamento de Paulo bem evidente:
"Toda mulher que estiver em oração e profetizar com a cabeça descoberta
desonra a sua cabeça" (1Cor 11,5). Que significa "toda mulher",
senão mulher de qualquer idade, de qualquer ordem, de qualquer condição?
Dizendo "toda" , ele não exclui qualquer categoria de mulher, como
não exclui qualquer homem da proibição de velar a cabeça. Por isso, com efeito,
diz: "Todo homem" (1Cor 11,4). Como, pois, relativamente ao sexo
masculino, com a expressão "todo homem", Paulo proíbe até aos mais
jovens usar véu, igualmente, para o sexo feminino, com o termo mulher, obriga
até a virgem a cobrir-se com o véu. Em ambos os sexos, os de menor idade devem
seguir a disciplina dos maiores. Do contrário, obrigaríamos os rapazes ainda
virgens do sexo masculino a usar véu, se não são as mulheres virgens obrigadas
a isso, visto que os rapazes não são nominalmente citados. Se há distinção
entre mulher e virgem, também existe entre homem e rapaz.
5. Com certeza, diz Paulo que as mulheres devem usar véu
por causa dos anjos (cf. lCor 11,10), porque os anjos se afastaram de Deus por
causa das filhas dos homens (cf Gn 6,2). Quem poderá responsabilizar só as
mulheres adultas, já casadas e privadas da virgindade, de excitarem a
concupiscência, a não ser que se negue que as virgens são mais belas e atraem
enamorados? Vejamos mesmo se os anjos não desejaram senão as virgens, já que a
Escritura diz "filhas dos homens", quando podia nomear
indiferentemente as esposas dos homens ou as mulheres.
6. Igualmente, ao dizer: "E as tomaram por
esposas" (Gn 6,2), a Escritura quer dizer que são recebidas como esposas
as mulheres ainda não casadas. Se não fossem mulheres núbeis, usaria de
expressâo diferente. Uma mulher é disponível para contrair casamento se é viúva
ou virgem. Assim, usando o termo "filhas" inclui nessa expressão
genérica uma categoria especial.
7. Quando diz o Apóstolo que a própria natureza ensina
que as mulheres devem usar véu, pois a sua cabeleira lhes serve de cobertura e
ornamento, não podemos, acaso, concluir que também às virgens foi determinada
semelhante cobertura e ornamento? Se é vergonhoso para uma mulher raspar a
cabeça, o mesmo é para a virgem.
8. Se existe uma única condição para a cabeça da mulher,
há uma única disciplina, inclusive para aquelas virgens que ainda têm a
proteção da infância. Já desde pequenina, a menina é chamada de mulher. Foi
assim, de resto, a observância do povo de Israel. Mas mesmo que nele não se
observasse esse costume, a nossa lei, que amplia e completa a dele, exigiria
para si esse acréscimo, impondo às virgens o uso do véu. Escuse-se dessa norma
aquela idade que ainda ignora o sexo. Que ela goze do privilégio da
simplicidade infantil. Todavia, Eva e Adão, logo que começaram a conhecer o bem
e o mal, ocultaram sem demora o que descobriram (cf. Gn 3,7). Assim também, as
meninas que passaram da infância, do mesmo modo que obedecem à natureza,
obedeçam também à disciplina. Ao se desenvolver o corpo, começam também as
funções da mulher. Nenhuma menina é mais virgem, desde que se pode casar,
porque então a idade a desposou a um varão, isto é, ao tempo [da puberdade].
9. Mas pode alguém objetar: Uma jovem se consagrou a
Deus. Apesar disto, à medida que cresce, ela muda de penteado e todos os seus
vestidos, à maneira feminina. Fale com toda gravidade e mostre-se à altura de
uma virgem. Se algo esconde por causa de Deus, proteja-o completamente. Se
vivemos sob o olhar complacente de Deus, interessa-nos que só a ele nos
confiemos, de modo somente dele conhecido, a fim de não recebermos do homem o
que só de Deus esperamos. Por que, então, descobrir diante de Deus o que velas
diante dos homens? Serás, por acaso, mais recatada na rua do que na igreja? Se
é graça de Deus [a tua virgindade] e, como diz Paulo, a "recebeste, por
que te glorias, como se não tivesses recebido"? (1Cor 4,7). Por que te
mostras ostensivamente e julgas assim as outras? Ou, acaso, pensas que com a
tua vaidade, convidas as outras para o bem? Na realidade, se te glorias, corres
o risco de te perderes, e forças as outras a correrem o mesmo perigo.
Facilmente se destrói o que se assume com desejo de glória. Cobre-te do véu, ó
virgem, se és virgem; deves enrubescer-te. Se és virgem, não suportes o olhar
de muitos. Ninguém possa olhar com admiração a tua face; ninguém perceba em ti
uma farsa. Se velas a tua cabeça, finges ser casada. Mas, a bem dizer, não
estás mentindo, pois és esposa de Cristo. A ele consagraste a tua carne; vive,
pois, segundo a disciplina do teu esposo. Se ele ordena que usem véu as esposas
alheias, quanto mais as suas!
10. Mas objetam: Ninguém deve mudar o que foi instituído
por seu antecessor. Muitos aprovam com sua prudência um costume instituído por
outro e reconhecem essa tradição. Mas, admita-se que as jovens não sejam
obrigadas a trazer o véu; não se deve, contudo, impedir que o ponham aquelas
que o quiserem. E se também as virgens não podem negar o que são, contentem-se
em gozar da certeza de que Deus está ciente da sua virtude. Quanto àquelas que
se desposarem, posso declarar com certeza, a meu critério, que elas devem usar
o véu, desde o dia em que pela primeira vez tocaram o corpo do seu esposo e
tremeram pelo beijo e pelo aperto da mão direita. Para tais mulheres, tudo já é
matrimônio: a idade, porque já são maduras; a carne, porque já têm idade de
casar-se; pelo espírito, porque conscientes de tudo; pelo pudor, porque
experimentaram o beijo; a esperança, porque estão na expectativa das núpcias; a
mente, porque querem o casamento. Baste-nos o exemplo de Rebeca: apenas
indicado o seu futuro esposo, já se toma esposa à notícia de sua chegada e logo
se cobre do véu (cf. Gn 24,65).
Fonte: Da oração- Tertuliano de Cártago

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