Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu
reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse
entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. João 18:36
Com estas palavras ele reconhece que ele é um rei , mas, tanto
quanto era necessário para provar sua inocência, ele se subtrai da calúnia,
pois declara que não há desacordo entre o seu reino e governo político ou
ordem; como se ele tivesse dito: "Estou sendo falsamente acusado, como tivesse tentado
produzir um distúrbio ou tivesse
tentando uma revolução nos assuntos públicos. Tenho pregado sobre o reino de
Deus, que é espiritual, e, portanto, você não tem o direito de suspeitar que aspiro o poder real." Essa defesa foi
feita por Cristo diante de Pilatos, mas a mesma doutrina é útil para os crentes
para o fim do mundo; pois, se o reino de Cristo fosse terreno, seria frágil e
mutável, pois aparência deste mundo passa (1 Coríntios 7:31).
Mas agora, uma vez que é dito ser celestial, isto
assegura-nos de sua perpetuidade. Assim, quando o mundo inteiro aparenta
desabar, se nossas consciências estiverem direcionadas para o reino de Cristo, elas vão,
no entanto, manter-se firme, não só no meio de tremores e convulsões, mas mesmo
em meio à ruína e destruição terríveis Se formos cruelmente castigados por homens maus, ainda nossa salvação é
assegurada pelo reino de Cristo, que não está sujeito ao capricho dos homens.
Em suma, existem inúmeras tempestades pelas quais o mundo está agitado
continuamente, mas o reino de Cristo, em
que devemos procurar tranquilidade, é separado do mundo.
Somos ensinados também qual é a natureza deste reino; pois se ele nos
faz felizes segundo a carne, isto é, com riquezas, luxos e
tudo o que é desejável para o uso da vida presente, será cheiro da terra e do
mundo; mas agora, apesar de nossa condição ser aparentemente miserável, ainda a
nossa verdadeira felicidade continua intacta. Nós aprendemos com ele também quem são os que pertencem a este reino: aqueles
que, tendo sido renovados pelo Espírito de Deus, contemplam a vida celeste em santidade e justiça. Ainda assim merece a nossa atenção: da mesma forma que não é dito que o reino de Cristo não é
deste mundo, sabemos que ele tem a sua
sede em nossos corações, como também Cristo diz : “O reino de Deus está dentro
de vós” (Lucas 17:21). Mas, a rigor, o
reino de Deus, ao mesmo tempo que habita em nós, é estranho para o mundo,
porque sua condição é totalmente diferente.
[Cristo ] prova que não
teve como objetivo um reino terreno, porque ninguém se move, ninguém levanta os
braços em seu apoio; pois, se um particular reivindicar a autoridade real, ele
deve ganhar o poder por meio de homens sediciosos. Nada desse tipo é visto em
Cristo; e, portanto, segue-se que ele não é um rei terreno.
Mas aqui surge uma
pergunta: O reino de Cristo não pode ser
defendido pelas armas, uma vez que os
reis e príncipes são ordenados a beijar
o Filho de Deus (Salmo 2: 10-12) e não
só são intimados a apresentar a sua autoridade a título particular, mas também
a empregar todo o poder que eles possuem para defender a Igreja e manter a
piedade? Eu respondo: em primeiro lugar, os que tiram a conclusão de que a doutrina do Evangelho é
apenas pura adoração a Deus e que não
deveria ser defendida pelas armas, são inábeis
e ignorantes, pois Cristo argumenta só dos fatos em questão , como eram frívolas
as calúnias que os judeus tinham contra ele instauradas. Em segundo lugar,
embora reis piedosos defendam o reino de Cristo pela espada, ainda que seja feito de uma
maneira diferente daquela em que os reinos do mundo estão acostumados a defender
, o reino de Cristo, sendo espiritual,
deve ser fundamentado na doutrina e poder do Espírito. Do mesmo modo também sua edificação é promovida; pois nem as leis e
decretos de homens, nem os castigos infligidos por eles entram nas consciências. No entanto, isso não
impede que príncipes acidentalmente defendam o reino de Cristo; em parte, com intuito de
disciplina externa e, em parte, ao dar a sua proteção à Igreja contra os homens
maus. Isso resulta, no entanto, a partir da depravação do mundo, que o reino de
Cristo se fortalece mais pelo sangue dos mártires do que com a ajuda das armas.
Tradução: Luciano de Oliveira

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