quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A Natureza do Reino de Cristo ( I ) - João Calvino


Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. João 18:36

Com estas palavras  ele reconhece que ele é um rei , mas, tanto quanto era necessário para provar sua inocência, ele se subtrai da calúnia, pois declara que não há desacordo entre o seu reino e governo político ou ordem; como se ele tivesse dito: "Estou sendo  falsamente acusado, como tivesse tentado produzir um distúrbio  ou tivesse tentando uma revolução nos assuntos públicos. Tenho pregado sobre o reino de Deus, que é espiritual, e, portanto, você não tem  o direito de suspeitar  que aspiro o poder real." Essa defesa foi feita por Cristo diante de Pilatos, mas a mesma doutrina é útil para os crentes para o fim do mundo; pois, se o reino de Cristo fosse terreno, seria frágil e mutável, pois aparência deste mundo passa (1 Coríntios 7:31).

 Mas agora, uma vez que é dito ser celestial, isto assegura-nos de sua perpetuidade. Assim, quando o mundo inteiro aparenta desabar,  se nossas consciências  estiverem  direcionadas para o reino de Cristo, elas vão, no entanto, manter-se firme, não só no meio de tremores e convulsões, mas mesmo em meio à ruína e destruição terríveis Se formos  cruelmente castigados  por homens maus, ainda nossa salvação é assegurada pelo reino de Cristo, que não está sujeito ao capricho dos homens. Em suma, existem inúmeras tempestades pelas quais o mundo está agitado continuamente, mas  o reino de Cristo, em que devemos procurar tranquilidade, é separado do mundo.

Somos ensinados também  qual é a natureza deste reino; pois se ele nos faz  felizes  segundo a carne, isto é, com riquezas, luxos e tudo o que é desejável para o uso da vida presente, será cheiro da terra e do mundo; mas agora, apesar de nossa condição ser aparentemente miserável, ainda a nossa verdadeira felicidade continua intacta. Nós aprendemos com ele também  quem são os que pertencem a este reino: aqueles que, tendo sido renovados pelo Espírito de Deus, contemplam a vida celeste  em santidade e justiça. Ainda assim  merece a nossa atenção: da mesma forma  que não é dito que o reino de Cristo não é deste mundo, sabemos que ele  tem a sua sede em nossos corações, como também Cristo diz : “O reino de Deus está dentro de vós”  (Lucas 17:21). Mas, a rigor, o reino de Deus, ao mesmo tempo que habita em nós, é estranho para o mundo, porque sua condição é totalmente diferente.

[Cristo ] prova que não teve como objetivo um reino terreno, porque ninguém se move, ninguém levanta os braços em seu apoio; pois, se um particular reivindicar a autoridade real, ele deve ganhar o poder por meio de homens sediciosos. Nada desse tipo é visto em Cristo; e, portanto, segue-se que ele não é um rei terreno.

Mas aqui surge uma pergunta:  O reino de Cristo não pode ser defendido  pelas armas, uma vez que os reis e príncipes  são ordenados a beijar o Filho de Deus  (Salmo 2: 10-12) e não só são intimados a apresentar a sua autoridade a título particular, mas também a empregar todo o poder que eles possuem para defender a Igreja e manter a piedade? Eu respondo: em primeiro lugar,  os que tiram  a conclusão de que a doutrina do Evangelho é apenas  pura adoração a Deus e que não deveria ser defendida  pelas armas, são inábeis e ignorantes, pois Cristo argumenta só dos fatos em questão , como eram frívolas as calúnias que os judeus tinham contra ele instauradas. Em segundo lugar, embora reis piedosos defendam o reino de Cristo  pela espada, ainda que seja feito de uma maneira diferente daquela em que os reinos do mundo estão acostumados a defender ,  o reino de Cristo, sendo espiritual, deve ser fundamentado na doutrina e poder do Espírito. Do mesmo modo  também  sua edificação é promovida; pois nem as leis e decretos de homens, nem os castigos infligidos por eles  entram nas consciências. No entanto, isso não impede que príncipes acidentalmente defendam  o reino de Cristo; em parte, com intuito de disciplina externa e, em parte, ao dar a sua proteção à Igreja contra os homens maus. Isso resulta, no entanto, a partir da depravação do mundo, que o reino de Cristo se fortalece mais pelo sangue dos mártires do que com a ajuda das armas.


João Calvino. Comentários em João 18:36
Tradução: Luciano de Oliveira

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