quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O Pacto Abraâmico ( Circuncisão X Batismo ) – A.W. Pink


VIII

As grandes promessas da aliança abraâmica, como originalmente dadas ao patriarca, são registradas em Gênesis 12:2,3,7. A própria aliança foi solenemente ratificada pelo sacrifício, tornando-se assim inviolável, conforme Gênesis 15:9-21. O selo e sinal da aliança, a circuncisão, é trazida diante de nós em Gênesis 17:9-14. A aliança foi confirmada pelo juramento divino em Gênesis 22:15-18, o que proporcionou um terreno de "firme consolação" (Hb 6:17-19). Não havia dois distintos e diversos pactos feitos com Abraão (como os batistas mais antigos argumentavam), um que dizia respeito a bênçãos espirituais e outro relativo a benefícios temporais. O pacto era um, tendo um objeto espiritual especial, para o qual o regime das temporais e privilégios inferiores desfrutados pela nação de Israel eram estritamente subordinados, e necessários apenas como um meio de garantir o resultado superior contemplado.

É verdade que o conteúdo do pacto era de um tipo misto, que envolvia tanto a  descendência natural como a  semente espiritual de Abraão, suas promessas que recebiam uma menor e maior realização. Havia uma realização temporária dessas promessas para sua descendência natural aqui na terra e havia outra de realização eterna para seus filhos espirituais no céu. A menos que esta dualidade do conteúdo do pacto esteja constantemente em mente, é impossível obter uma visão correta e clara dele. No entanto, é essencial que se distinga claramente essa dualidade para que não caiamos no erro de outros que insistem que as bênçãos espirituais pertenciam não só à semente natural de Abraão como também a descendência dos cristãos. Bênçãos espirituais não podem ser comunicadas por propagação carnal.

Nada poderia ser estabelecido mais claramente do que acaba de ser salientado: "Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são  os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência."(Rm 9:6-8). Nem todos os descendentes de Abraão participam das bênçãos espirituais prometidas a ele, mas apenas alguns deles. Cristo disse: "Vós morrereis nos vossos pecados" (João 8:24), que foi prefigurado no fato de Ismael e Esaú serem excluídos até mesmo dos privilégios temporais desfrutados pelos descendentes de Isaac e Jacó. Nem todos os filhos dos cristãos podem se beneficiar dos privilégios espirituais prometidos a Abraão, mas somente aqueles que foram eternamente escolhidos para a salvação; os mesmos não podem ser conhecidos até que eles creiam: "Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão"(Gl 3:7).

Vamos apontar no próximo lugar que a aliança de Abraão era estritamente peculiar a ele mesmo; nem no Antigo Testamento nem no Novo é dito que a aliança com Abraão foi feita em nome de todos os crentes, ou que ela é dada a eles. A grande coisa que a aliança  garantiu a Abraão foi que ele deveria ter uma semente, e que Deus seria o Deus dessa semente; mas os cristãos não têm autorização divina para que Ele seja o Deus de sua semente, nem mesmo se eles tivessem absolutamente todas as crianças. Na realidade muitos deles não têm posteridade; e, por conseguinte eles não podem ter o pacto de Abraão. O pacto de Abraão era tão peculiar a ele mesmo como aquele que Deus fez com Finéias: "E ele, e a sua descendência depois dele, terá a aliança do sacerdócio eterno" (Nm 25:13), e como a aliança de realeza que Deus fez  com Davi e sua descendência ( 2 Sm 7: 12-16). Em cada caso, foi dada uma promessa divina assegurando uma posteridade, mas se aqueles homens não tivessem filhos, então Deus quebraria sua aliança.

Observe as promessas originais feitas a Abraão: "E eu farei de ti uma grande nação, e eu te abençoarei, e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E eu abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti todas as famílias da terra serão abençoadas " (Gn 12:2,3). Será que Deus prometeu a todo cristão que Ele vai fazer dele uma "grande nação"? Ou que Ele vai fazer com o nome de cada um deles seja  "engrandecido” como fizera com o patriarca? Ou que neles "todas as famílias da terra serão benditas"? Certamente, não há espaço para discussão aqui: As muitas perguntas por si só se respondem. Nada poderia ser mais extravagante e absurdo do que supor que quaisquer promessas como estas foram feitas para nós.

Se Deus cumpre a aliança com Abraão e sua descendência, todo crente e sua semente, então Ele procederá conforme os termos da própria aliança. Mas se nos voltarmos para ela e examinar cuidadosamente seu conteúdo, ficará evidente que ela não era para se cumprida em todos os crentes, exceto com o próprio Abraão. Nesse pacto Deus promete que Abraão deveria ser "um pai de muitas nações", que “reis sairão de ti ", que " eu te darei e a tua descendência depois de ti a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em possessão perpétua " (Gênesis 17: 5-8). Mas os cristãos não são feitos pais de muitas nações; reis não saem deles; nem seus descendentes ocupam a terra de Canaã literal ou espiritualmente. Como muitos crentes piedosos tiveram que chorar como Davi: " Ainda que minha casa não seja tal para com Deus, contudo estabeleceu comigo uma aliança eterna, que em tudo será bem ordenado e guardado, pois toda minha salvação está nele” (2 Sm 23: 5).
  
A aliança não estabelecia nenhuma relação espiritual entre Abraão e seus descendentes; menos ainda entre todos os crentes e seus bebês. Abraão não foi pai espiritual de sua própria descendência natural, porquanto as qualidades espirituais não podem ser propagadas por geração carnal. Ele era o pai espiritual de Ismael? Ele era o pai espiritual de Esaú? Não, de fato; em vez disso, Abraão era "o pai de todos os que crêem" (Rm 4:11). Tanto quanto seus descendentes naturais estavam preocupados, a Escritura declara que Abraão era "o pai da  circuncisão, daqueles que não são apenas da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé de nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão"(Rm 4:12). O que poderia ser mais claro? Vamos tomar cuidado com os acréscimos à Palavra de Deus. Nenhuma teoria ou prática, não importa quão venerável ou amplamente difundível ela seja, se não houver o ensino claro na Escritura não podem ser justificadas ou estabelecidas.

Uma pergunta pode ser feita: mas não estão os cristãos sob o pacto abraâmico? Na ausência de qualquer palavra nas Escrituras afirmando que eles estão, nós respondemos Não. A bênção de Abraão vem aos [crentes] gentios por Jesus Cristo" (Gl 3:14), e o que é está bênção o mesmo versículo diz: "para que recebêssemos a promessa do Espírito através da fé.” Essa bênção não consiste na criação de relações espirituais entre crentes e sua prole infantil, mas é por si mesma  uma resposta ao exercício da sua fé. Mais claro ainda é Gálatas 3: 9 ao definir para nós como  a "bênção de Abraão" viria sobre os gentios: "De sorte os que são da fé são abençoados com o crente Abraão." E mais uma vez: "Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão" (v.7). Os únicos filhos espirituais de Abraão são os que têm fé.

Devemos agora voltar e considerar o selo da aliança. "E disse Deus a Abraão: Tu guardarás a minha aliança, tu e a tua descendência depois de ti em suas gerações. Esta é a minha aliança que o guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Todo homem-criança entre vós será circuncidado. E haveis de circuncidar a carne do prepúcio; cabendo-lhe ser um sinal da aliança entre mim e vós. E aquele que é de oito dias de idade devem ser circuncidado entre vós, todo o homem-criança nas vossas gerações, tanto o nascido em casa, ou comprado com dinheiro a qualquer estrangeiro, que não é de tua semente. Aquele que é nascido em tua casa, e o comprado a dinheiro, há de ser circuncidado; e estará a minha aliança na sua carne por aliança perpétua. E o homem-criança incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança "(Gn 17: 9-14).

Ao procurar saber qual a importância da passagem acima, não podemos fazer melhor do que jogar sobre ela a luz do Novo Testamento. É dito-nos: "E ele [Abraão] recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé quando estava na incircuncisão, para que  fosse pai de todos os que crêem, estando eles também na incircuncisão; a fim também  que a justiça lhes seja imputada" (Rm 4:11). A primeira observação que poderíamos fazer sobre este versículo é que ele definitivamente estabelece a unidade da aliança com Abraão.  Em Romanos 4: 3 o apóstolo tinha citado Gênesis 15, onde a palavra aliança aparece pela primeira vez em conexão com Abraão; agora ele nos remete a Gênesis 17, justificando assim que a aliança era a mesma em ambos os capítulos. A principal diferença entre os dois capítulos é que um salienta mais o lado divino (ratifica o pacto), o outro o lado humano (a manutenção da aliança  ou obediência à ordem divina).

A próxima coisa que observo é que a circuncisão era "um selo da justiça da fé que ele tinha." Mais uma vez gostaríamos de dizer: Vamos estar em guarda contra a adição à Palavra de Deus, pois  nenhum lugar das Escrituras diz que a circuncisão era um selo para alguém além do próprio Abraão; e até mesmo no seu caso foi observado que ela não comunicava qualquer bênção espiritual, mas simplesmente confirmava o que já fora prometido a ele. Como um selo de Deus, a circuncisão era um penhor divino ou garantia de que ele deveria gerar essa semente que traria bênção para todas  as nações, e que, nos mesmos termos em que se justifica a justiça se tornou sua somente pela fé. Não era um selo de sua fé, mas da justiça que, no devido tempo, era para ser operada pelo Messias e Mediador. A circuncisão não era um memorial de qualquer coisa que já tinha vindo e que era para ser atualizada, mas uma garantia do que ainda viria no futuro, ou seja, a  justiça que deveria ser trazida por Cristo.

Mas Deus não mandou que todos os homens da família de Abraão e seus descendentes fossem circuncidados? Ele o fez, e naquele mesmo fato encontramos a definitiva confirmação do que foi dito acima. O que era o selo da circuncisão aos servos e escravos de Abraão? Nada. "A circuncisão não assinalava nem selava as bênçãos do pacto de Abraão com os indivíduos a quem foi administrada por determinação divina. Ela não implicava que os que foram circuncidados estavam contabilizados como herdeiros das promessas, quer temporal ou espiritualmente. Nem mesmo  foi aplicada a Isaac e Jacó, que são por nome designados herdeiros de Abraão, para marcá-los como herdeiros das promessas. O  interesse nas promessas foi garantido a eles por Deus ao dar-lhes explicitamente a aliança, todavia não se fez representar na circuncisão deles. A circuncisão não marcava nenhum caráter e não tinha uma aplicação individual para nenhum homem, exceto ao próprio Abraão. Era o sinal dessa aliança; e quanto um símbolo ou sinal, sem dúvida, aplicado a cada promessa do pacto, mas não designava ao indivíduo circuncidado um interesse pessoal em tais promessas. A aliança prometeu uma numerosa descendência a Abraão; a circuncisão, como o sinal da aliança representava isso; todavia não sinalizou isso a qualquer outro. Qualquer outro indivíduo circuncidado, exceto Isaac e Jacó, a quem a aliança foi dada explicitamente, poderia não gerar  filhos.

"A circuncisão não importava que  a numerosa descendência de Abraão devia vir  de qualquer indivíduo de sua descendência. A aliança prometia que todas as nações seriam abençoadas em Abraão -que o Messias deveria ser seu descendente. Mas a circuncisão não indicava a nenhum  outro que o messias deveria vir, exceto ao  próprio Abraão –mesmo a Isaac e Jacó esta promessa fora dada particularmente e não pela circuncisão deles. De alguns da raça de Abraão, o Messias, de acordo com o pacto, devia vir-a  circuncisão era um sinal disso: mas isto  não foi representado pela circuncisão de qualquer um de toda a sua raça. Muito menos poderia a circuncisão ser um  'sinal' para os estrangeiros e os escravos que não eram da descendência de Abraão. Para os tais, até mesmo as promessas temporais  não eram 'sinalizadas' ou seladas pela circuncisão. A aliança prometia Canaã para os descendentes de Abraão, mas a circuncisão dos estrangeiros e escravos não indicava nenhum sinal de sua herança nela"(Alexander Carson, 1860).

Que a circuncisão não confirmava nada a ninguém, além do próprio Abraão, é ratificado sem sombra de dúvida pelo fato de que a circuncisão foi aplicada àqueles que não tinham interesse pessoal no que fora prometido no pacto. Não só foi a circuncisão administrada por Abraão a servos e escravos de sua casa, mas também em Gênesis 17:23 lemos que ele circuncidou Ismael que foi expressamente excluído desse pacto! Não há como fugir da força do argumento acima; é impossível conciliá-lo com os pontos de vista tão amplamente penetrantes sobre a aliança abraâmica. Além disso, a circuncisão não foi submetida voluntariamente, nem dada com referência a fé, que era obrigatória, não obstante em todos os casos: "Aquele que é nascido em tua casa, e aquele  comprado por teu dinheiro é necessário que seja circuncidado"(Gn 17:13), quem se recusasse fosse "cortado do seu povo"(14 v.). Quão diferente é isso do batismo cristão!

Talvez alguém pergunte: Se a circuncisão não selava  nada para quem a recebeu, salvo ao próprio Abraão, então por que Deus ordena que ela seja administrada a todos os descendentes masculinos de Abraão ? Em primeiro lugar, porque essa era a marca  que Ele escolhera  para distingui-los de todos os outros povos  de quem o Messias havia de vir. Em segundo lugar, porque serviu como um lembrete constante de que, logo que a semente prometida de Abraão viesse, a circuncisão seria deixada de lado por Deus. Em terceiro lugar, por causa do que ela tipificava. Aos que nasciam naturalmente de Abraão a circuncisão representava a herança terrena, que prefigurava o direito à herança celestial dos que nascem do Espírito. Os servos e escravos na casa de Abraão "comprados com dinheiro" lindamente esboçavam a verdade  daqueles que entram  no reino de Cristo "comprados" pelo Seu sangue.

É um erro supor que o batismo ficou no lugar da circuncisão. Pelo fato de os  sacrifícios do Antigo Testamento através do sacerdócio de Arão serem substituídos  pela única  oferta do Salvador através de seu sumo sacerdócio , a circuncisão  foi sucedida  pela circuncisão espiritual que os crentes têm em Cristo: "No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mãos, no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo" (Colossenses 2:11) - Quão simples! Quão gratificante! "Sepultados com ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados com ele" (v. 12). É algo adicional,  é torcer as Escrituras  dizer que este dois versos significam : "Ser enterrado com ele no batismo é ser circuncidado." Não, não;  o versículo 11 declara que a circuncisão cristã é "feita sem mãos ", todavia o batismo é administrado com  mãos! A circuncisão" feita por mãos, judicialmente, diante de Deus, o corpo dos pecados da carne "tomou o lugar da circuncisão não feita por mãos humanas. A circuncisão de Cristo ficou no lugar da circuncisão da lei. Nunca no Novo Testamento é  dito que o batismo é  selo do nova aliança; antes o selo é o Espírito Santo (ver Efésios 1:13; 4:30).

Resumindo. O grande projeto da aliança de Deus com Abraão foi para dar a conhecer que através dele viria  Aquele que traria bênção para todas as famílias da terra. As promessas feitas a ele estavam a receber um menor ou maior cumprimento, conforme  ele tivesse filhos naturais e espirituais - pois "reis sairão de ti" (Gn 17: 6)      comparar com Apocalipse 1:6; pois "a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos" (Gn 22:17) comparar com Colossenses 2:15; Romanos 8:37; I João 5: 4. Abraão é chamado de "pai" não em sentido federal ou espiritual, mas porque ele é o chefe do clã da fé, o protótipo pelo qual todos os crentes são conformados. Os cristãos não estão sob o pacto abraâmico, embora sejam "abençoados com ele" tendo  a sua fé contada para a justiça. Embora os crentes do Novo Testamento não estejam sob a aliança com Abraão, eles são herdeiros de sua herança espiritual por causa de sua união com Cristo.

Resta-nos agora a apontar em que o pacto abraâmico esboçava a aliança eterna. Primeiro, ele proclamou o alcance internacional da misericórdia divina: alguns de todas as nações foram incluídos na eleição da graça. Em segundo lugar, deu a conhecer a  provisão decretada a partir da qual o Messias e Mediador faria a remissão. Em terceiro lugar, ela anunciava que só a fé garantia um interesse em tudo que  Deus havia prometido. Em quarto lugar, em Abraão ser o pai de todos crentes foi prefigurada a verdade que Cristo é o Pai de Sua própria semente espiritual (Is 53:10, 11). Em quinto lugar, o chamado de Abraão por Deus a deixar seu país e se tornar um peregrino em uma terra estranha foi  um tipo de Cristo  deixando o céu e o tabernáculo sobre a terra. Em sexto lugar, como "herdeiro do mundo" (Rm 4:13) Abraão tipificava Cristo como     " herdeiro de todas as coisas" (Hb 1 : 2). Em sétimo lugar, na promessa de Canaã a sua semente, temos uma figura da herança celestial que Cristo adquiriu para o seu povo.

(Parece uma triste tragédia que o povo de Deus  esteja tão dividido  por causa do  batismo, embora temos fortes convicções sobre o assunto que se abstiveram de prensagem, ou mesmo de apresentação neste estudo. Todavia  parecia impossível lidar fielmente com a aliança abraâmica sem fazer algumas ligeiras referências. Temos procurado escrever com moderação o capítulo acima, evitando expressões duras e reflexões desnecessárias. Confiamos que o  leitor vai gentilmente recebê-lo no espírito em que está escrito).


Fonte: Providence Baptist Ministries - The Divines Convenants ( chapter 8, The Abrahamic Convenant)
Tradução: Luciano de Oliviera

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