segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um Breve Catecismo sobre o Batismo, por John Tombes, B.D.

John Gano batizando George Washington
Hb 6.2. Da doutrina do batismo. 
Lucas 7.35. Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.

Londres: 1659

Ao leitor cristão.

Ultimamente os credobatistas têm sido acusados de muitas coisas, tanto em doutrina como na prática; como provado por vários longos tratados já impressos, essas acusações lhes são imputadas injustamente. Para maior clareza da verdade, ao invés de um tratado ainda maior, esse compêndio foi redigido e publicado em forma de catecismo, no momento em que outros, de julgamento diferente, foram considerados aptos para declarar seu ponto de vista ao mundo. Não o fizemos devido às pequenas diferenças em outras questões, nem por causa de opiniões pessoais e específicas (de pessoas cuja causa está a serviço do que é comunmente aceito). Portanto, faz-se desnecessária outra Confissão ou Declaração distinta daquilo que já foi, por outros, publicado.

Achei necessário e importante restaurar a correta doutrina do batismo, uma doutrina fundamental do cristianismo (Hb 6.2) pela qual nos revestimos de Cristo (Gl 3.27), somos unidos a seus membros (Ef 4.5) e moldados conforme sua imagem (Cl 2.12; Rm 6.3-5). O batismo é requerido com fé para a salvação (Mc 16.26), com o arrependimento para remissão dos pecados (At 2.38); a profissão de fé expressa do batizado é necessária (At 8.37) após manifestação da conversão (At 10.47; At 11.17), como um dever dos batizados e não um privilégio (At 22.16). O batismo foi administrado solenemente nos tempos primitivos com análise rigorosa e maior engajamento das pessoas batizadas. Ele representava a principal evidência do cristianismo de uma pessoa naquele momento, mais do que a Ceia do Senhor; de sorte que alguns o cogitam a partir de Hb 6.4.

Mas o Batismo de Crianças agora administrado é profano e bem diferente de sua Instituição e prática dos Apóstolos. A maneira pela qual ele é administrado pelos ministros é tão carnal e baseado em inverdades brutas, uma perversão da Sagrada Escritura de Cristo. A pretensão do Voto Batismal induz almas incautas a tantas conseqüências danosas quer seja nas conversasões cristãs e na comunhão da igreja, quer seja na constituição do governo eclesiástico. Se deveras os homens sensatos percebessem o seu mal, deveriam tremer por causa de tal zombaria a uma tão santa ordenança do culto divino. Ademais, temeriam pelas almas dos homens com tal presunção arrogante, ao admitir que uma invenção de homens seja tomada como preceito de Deus.

E, para falar a verdade, se a História desta corrupção fosse totalmente clara, descobrir-se-ia que o ministério indevido deste mandamento fora responsável para que a escuridão anticristã e a tirania se espalhassem e oprimissem as Igrejas cristãs. O objetivo do autor é a manifestação da verdade, no qual se queixa alegrar e espera que outras pessoas também possam se alegrar com ele. Seu desejo é o mesmo do apóstolo:
todos quantos já somos perfeitos sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará (Fl 3.15,16).

Adeus!

1. O Batismo com água é um mandamento de Cristo para ser continuado por seus discípulos até o fim do mundo?

O batismo com água é uma ordenança de Cristo que deve ser continuada por seus discípulos até o fim do mundo; como parece pelo seu mandamento (Mt 28.19-20; Mc 16.15-16), o batismo com água deve-se seguir da Pregação do Evangelho e do discipulado. Deve-se pregar e ensinar os discípulos a observar tudo o que Cristo manda; este, por sua vez deve continuar com a pregação do evangelho e o discipulado até o fim do mundo, pois Cristo prometeu estar com eles até aquele dia. Se essa promessa não era verdadeira, tais coisas não eram para ser mantidas por tanto tempo.

2. Não é o fim do mundo o mesmo que o fim de uma era?

Cristo, em Mateus, chama o fim do mundo de último dia, no qual haverá uma separação entre o bem e o mal, onde uns serão queimados pelo fogo e outros brilharão como o Sol. As passagens em Mateus (Mt 13.39,40,49; Mt 24.3) não devem ser entendidas de outra forma.

3. O batismo em Mt 28.19 e Mc 16.16 deve ser entendido como o batismo com água?

O Batismo nessas passagens deve ser entendido, necessariamente, como o batismo na água, pois como o batismo de João Batista, que também fazia discípulos, era com água, assim deve ser o mesmo. A nomeação de Cristo em Mt 28.19 e Mc 16.16 era a mesma daquela registrada em João 4.1-2 e em muitos outros lugares onde ele aparece e os apóstolos fazem uso de sua prática e mandamento (Atos 2.38,41. Atos 10.47,48 ).
 
4. Não poderia significar o batismo pelo Espírito Santo ou o batismo de aflições?

O Batismo não deve ser assim entendido, pois o batismo com o Espírito não é em nenhum lugar atribuído a qualquer outro que não seja a Cristo (Mt 3.11; Lc 3.16); nem é o batismo com o Espírito um dever para nós, mas um dom gratuito de Cristo, não comum a todos os discípulos de Cristo, mas peculiar a alguns.

O Batismo de aflições era assim chamado porque os apóstolos sofreriam e seriam perseguidos assim como fora Cristo.

5. Por que Paulo, em seguida, diz que Cristo não lhe enviou para batizar? 1 Co 1.16.

Não que ele não fosse também nomeado para batizar, pois se assim for, ele não teria batizado aqueles a quem batizou (1 Co 1.14-16), mas como a lavagem da água é dita não ser para salvar (1 Pe 3.21), não era esse o único ou principal meio de salvação.

6. Como é o batismo instituído por Jesus Cristo?

O Batismo instituído por Jesus Cristo é a imersão do corpo inteiro na água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, segundo é manifesto pelo modo e fim do mesmo: o entrar e sair da água (Mt 3.16; At 8.38-39); o uso de muita água (Jo 3.23); o fim do mesmo, que é o de representar o sepultamento e a ressurreição de Cristo (Rm 6.4; Cl 2.12) e o testemunho dos anciãos dos primeiros séculos.

7. A aspersão ou derramamento de água sobre o rosto é o Batismo de Cristo?

Nem a Escritura, nem qualquer outra escritor antigo chama a aspersão ou o derramamento de água sobre o rosto de batismo, nem qualquer uso dele foi feito nos tempos primitivos. Portanto, a aspersão ou derramamento de água não é o batismo instituído por Cristo.

8. O que significar batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo?

Não se deve apenas batizar no nome dessas pessoas, mas também professar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, é nosso Mestre ou Professor, como parece pelas palavras de Paulo (1Co 1.13). Se os coríntios tivessem sido batizados no nome Paulo, eles tinham que professar ser ele seu mestre.

9. São batizados corretamente aqueles que se batizam apenas em nome de Jesus Cristo sem mencionar as outras pessoas?

Sim, o batismo apenas em nome de Cristo é o mesmo que em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como parece pelo preceito (At 2.38) e prática (At 10.48; At 19.5), embora a expressão de cada pessoa seja conveniente.
10. As pessoas a serem batizadas são inteiramente passivas em seu Batismo?

Não, é exigido arrependimento daqueles que serão batizados (Atos 2.38 ). Paulo foi ordenado a se levantar e ser batizado, lavar os seus pecados e invocar o nome do Senhor (Atos 22.16).

11. Quem pode batizar?

As pessoas que são chamadas para pregar o Evangelho (Mt 28.19; Mc 16.15-16).


12. Quem deve ser batizado?

Aqueles que se arrependem dos seus pecados, creem em Cristo Jesus e são seus discípulos (Mt 28.19; Mc 16.16; Atos 2.38; Atos 8.37).

13. Não havia crianças quando famílias inteiras foram batizadas em Atos 16.15.33.?

Não, pois não aparece que houvesse crianças nas casas, e os textos demonstram que crianças não foram batizadas, uma vez que a palavra foi falada a todos na casa (vs. 32), e toda a casa creu em Deus (vs. 34) e em outros lugares toda a casa é dita para fazer o que crianças não podem fazer (ver Atos 18.8; Atos 10.2 ; 1 Coríntios 16:15 em comparação com 1 Coríntios 1.16. João 4.53).

14. Não é o discurso de Cristo em Mt 19.14-15, Mc 10.14-16 e Lc 18.16-17 um mandado para batizar crianças?

Não, mas um argumento contra ele, uma vez que Cristo não as batizou nem deu ordem para que elas fossem batizadas.

15. Por que os bebês não deveriam ser batizados, já que eles eram circuncidados?

Os bebês do sexo masculino deveriam ser circuncidados por causa do mandamento especial de Deus para casa de Abraão, para fins especiais que pertencem ao tempo antes de Cristo, que o Batismo não tem, nem há qualquer mandamento para usar o Batismo de acordo com a regra da circuncisão.

16. Podemos ser considerados completos como os judeus sem o batismo infantil?

Não temos as ordenanças como os judeus tinham para se completarem, mas somos completos no que somos em Cristo; sem ele nada somos (Cl 2.8, 9,10).

17. Então os nossos filhos tem menos privilégios que os filhos dos judeus tinham?

Não. A circuncisão era um privilégio apenas por um tempo até que se chegasse o tempo dos gentios que não conheciam a Deus; mas por si mesma a circuncisão era um jugo pesado (At 15.10; Gl. 5.1,2,3).

18. Por que então os judeus lutavam tanto por isso (Atos 15.1,5)?

Porque eles muito estimavam a Lei, e não sabiam da liberdade que tinham pelo Evangelho.

19. Não seria um desconforto para os crentes judeus terem suas crianças não batizadas e fora da Aliança?

A falta de batismo às crianças nunca teve nenhuma queixa por parte dos crentes no Novo Testamento, eles não pensavam que sem o batismo estavam fora do Pacto da Graça.

20. Não era uma razão adequada os judeus circuncidarem os seus bebês tendo em vista o interesse que eles tinham no Pacto de Abraão (Gn 17.7) de que Deus seria o seu Deus, e da sua descendência?

O objetivo da circuncisão era, na verdade, ser um símbolo de toda a aliança feita com Abraão (Gn 17.4,5,6,7,8), e não só da promessa (vs. 7). Mas a razão porquê de alguns serem circuncidados e outros não, era unicamente o mandamento de Deus, não o direito ao Pacto. Ismael, que não era um filho da promessa (Gn 17.20.21; Rm. 9.6,7,8,9.) e aqueles que estavam na casa de Abraão, embora não fossem de sua semente, foram circuncidados, mas nenhuma mulher, nem os homens com menos de oito dias de idade.

21. Não era a aliança com Abraão (Gn 17) o Pacto da Graça?

Era de acordo com o significado oculto do Espírito Santo o pacto evangélico (Gl 3.16), mas de acordo com o sentido explícito das palavras, um pacto de benefícios especiais para a herança posterior da semente natural de Abraão; portanto, não era um pacto do evangelho puro.

22. Não estão as crianças dos crentes compreendidas sob a promessa de ser Deus um Deus a Abraão e à sua descendência (Gn 17.7)?

Não, a não ser que elas se tornem semente Abraão segundo a eleição da graça, pela fé.

23. Não seria a circuncisão um selo do pacto do evangelho (Rm 4.11)?

Esse texto não fala de outra circuncisão a não ser da circuncisão de Abraão, que selou a justiça da fé que ele tinha antes da circuncisão, e que garantiu assim a justiça a todos, embora não circuncidados, que deveriam acreditar como ele o fez.


24. Não são os Sacramentos da Igreja Cristã em sua natureza, selos do pacto da graça?

As Escrituras em nenhum lugar assim os chamam, nem acaso menciona isso como seu fim e uso.

25. Pedro, em Atos 2.38.39, não exorta os judeus a batizarem a si mesmos e a seus filhos, porque a promessa da graça é para os crentes e seus filhos?

Aqueles a quem ele falava não eram então crentes, portanto as palavras em Atos 2.39 não podem ser entendidas como uma promessa aos crentes e a seus filhos, mas uma promessa comum a todos, pais e filhos, chamados por Deus. Nem há qualquer exortação ao batismo sem arrependimento nessa passagem; nem é a promessa alegada como conferindo direito ao batismo, mas as palavras de Pedro eram para incentivá-los a esperar o perdão, uma vez que haviam requerido que o sangue de Cristo caísse sobre eles e seus filhos (Mt 27,25). Do mesmo modo fez José (Gn 50.19,20,21).

26. Não são os filhos dos crentes santos, e assim não deveriam ser batizados (1 Coríntios 7.14)?

Não há nenhuma santidade sendo atribuída à fé do crente em 1 Co 7.14, mas ao casamento, que era a única razão legal da junção. Os filhos dos pais, dos quais um é santificado pelo outro, são santos; não sendo assim, são imundos, ou seja, ilegítimos.

27. Não são os filhos dos crentes gentios enxertados pelo Batismo com seus pais, pois as crianças judias o eram pela circuncisão (Rm 11.16,17)?

O enxertamento em Rm 11.16,17 se dá pela fé, segundo a eleição; portanto, não é uma ordenança que se dá de pai para filho para se tornarem parte da igreja visível.

28. Os filhos dos crentes, visto que são discípulos de seus pais, não deveriam ser batizados pela fé deles? (Mt 28.19; At 15.10).

Não. Os discípulos são apenas aqueles que são chamados pela pregação do Evangelho; que ouvem, aprendem, depositam o seu jugo (At 15.10), e ensinam os irmãos (vs. 1). Portanto, os discípulos (vs. 10) não podem ser crianças.
 
29. Não são os filhos dos crentes membros visíveis da Igreja Cristã por lei e mandamento, pela promessa de Deus de ser Deus para eles e sua descendência, e preceito para dedicá-los a Deus, não revogados?

Não existe esse mandamento ou lei nas Escrituras, ou que se derive da Lei da Natureza; nem são Crianças em qualquer lugar contadas como membros visíveis da Igreja cristã no Novo Testamento.
 
30. Deus não prometeu (Gn 22.16-18) que cada crente seria uma bênção, de modo a projetar normalmente a eleição das crianças na eleição de seus pais e, assim, justificar o batismo infantil?

A realização da promessa não pertencia a qualquer semente de Abraão (Hb 6.12-14; Gl 3.8-9; At 3.25), mas apenas a sua semente espiritual, os crentes verdadeiros, que são chamados por Cristo e depois são batizados, e não seus filhos, até que esses exerçam fé na pessoa do salvador. 

31. Cristo não designa (Mt 28.19) os discípulos a batizar as crianças com os pais, como os judeus faziam com os prosélitos?

Se o batismo judaico fosse um modelo para os cristãos, os apóstolos o teriam então praticado, mas eles entenderam que tal coisa não era a vontade de Cristo.
 

32. Não é o batismo infantil suficiente se for confirmado depois de certa idade?

Não é o exercício de obediencia suficiente a uma ordenança de Cristo que exige da pessoa a ser batizada arrependimento e fé em Cristo (Mc 16.16; Mt 28.19; At 2.38; Ef 4.5).
 
33. Qual é o fim principal do Batismo?

Testificar arrependimento, fé, esperança, amor, firmeza do batizado em seguir a Cristo (Gl 3.27; Rm 6.3-4; 1 Co 15.29) e invocar o Nome do Senhor (At 22.16).
34. Como veio o batismo infantil a ser comum nas Igrejas cristãs?

Assim como a pedo-comunhão surgiu de uma interpretação errada de João 6.53, o batismo infantil começou cerca do terceiro século da Igreja Cristã a partir de outro erro de interpretação em João 3.5. Alguns eram da opinião que o batismo infundia graça, sendo portanto necessário para salvação da criança que morresse em tenra infância. No tempo de Agostinho tornou-se comum, o que antes não era tão frequente.

35. Há algum mal nisso?

O batismo infantil tende muito para endurecer pessoas em presunção, como se fossem cristãs antes de conhecem a Cristo, e dificulta muito a Reforma das Igrejas Cristãs, preenchendo-as com os membros ignorantes e escandalosos, além do grande pecado de profanar o mandamento de Deus.

35. Os opositores do Batismo infantil não se tornaram todos perversos, a final?

Bendito seja Deus que a experiência prova o contrário, apesar de alguns terem sido sediciosos e engajados em grandes erros.

36. Há algum bem em batizar pessoas, com idade o suficiente, apesar de terem sido batizadas quando crianças?

Sim, pois desse modo eles se comprometerão, solenemente, a firmarem-se em Cristo; o que cria um forte laço na consciência quando feito por alguém com discernimento, de acordo com a vontade de Cristo; além disso, também é garantia da união e conformidade à Cristo, e da justiça e vida por meio d'Ele. Rom. 6.3,4. Gal. 3.26. 1 Ped. 3.21. 

37. O que os cristãos devem fazer depois de serem batizados?

Eles devem participar da comunhão com a Igreja, e andar de acordo com o que se comprometeram, em obediência aos mandamentos que pairam sobre eles por causa de Cristo.

38. Os [credobatistas] devem se separar daqueles que se uniram a erros na prática das Ordenanças, ou à variações criadas por Pastores ou pessoas quaisquer?

Não, a menos que tal mal se apegue à fé, à adoração, ou à disciplina, de forma inconsistente com o Cristianismo, ou com o estado [de santidade] da Igreja visível; ou que se torne opressão intolerável, mantida obstinadamente, mesmo depois de tentativas de corrigir o erro. Cada membro [da igreja] deve se empenhar na verdade e fazer sua parte.

FIM.

Fonte: The Reformed Reader
Tradução: Luciano de Oliveira
Revisão: Rafael Abreu

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