segunda-feira, 25 de maio de 2015

A Natureza do Reino de Cristo (IV) – João Calvino

Davi e Golias 
Pede-me, e eu te darei os gentios por herança, e os fins da terra por tua possessão.Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro.Salmos 2:8,9

Davi, como sabemos, depois de ter alcançado marcantes vitórias, reinou sobre uma vasta extensão territorial, de modo que muitas nações se lhe tornaram tributárias; mas o que aqui se acha expresso não se cumpriu nele. Se compararmos seu reino com outras monarquias, veremos que ele esteve confinado dentro de limites muito tacanhos. Portanto, a  menos que nossa suposição seja que esta profecia concernente à vasta extensão do reino tivesse sido pronunciada em vão e falsamente, devemos aplicá-la a Cristo, o único que subjugou a si o mundo inteiro e mantém todas as terras e nações sob seu domínio. Consequentemente, aqui, como se dá em muitos outros lugares, a vocação dos gentios é prenunciada, para evitar que todos imaginassem que o Redentor que estava sendo enviado da parte de Deus era rei de uma só nação. E se agora vemos seu reino dividido, diminuído e sucumbido, tal coisa procede da perversidade dos homens, os quais se fazem indignos de estar sob um reinado tão feliz e desejável. Ainda, porém, que a ingratidão dos homens retarde a prosperidade do reino de Cristo, tal fato não anula o efeito dessa predição, porquanto Cristo recolhe os remanescentes de seu povo de todos os quadrantes, e em meio a essa ignóbil desolação os mantém unidos pelo sagrado vínculo da fé, de modo que não escape um canto sequer, senão que todo mundo esteja sujeito à sua autoridade. Além disso, quanto mais insolentemente os ímpios ajam, e quanto mais rejeitem sua soberania, não podem, por sua rebelião, destruir sua autoridade e poder.

[...] Desse invencível poder em guerra, Deus exibiu um espécime , primeiramente na pessoa de Davi que, como sabemos, conquistou e subjugou muitos inimigos pela força das armas.  Mas a predição é mais plenamente cumprida em Cristo que, não pela espada nem pela lança, mas pelo sopro de sua boca, golpeia os ímpios até a sua completa destruição.

[...] o sopro de sua boca substitui todas as demais armas [...] Portanto, ainda que Cristo não mova sequer um dedo, no entanto, ao falar troveja pavorosamente contra seus inimigos e os destrói só com  a vara de sua boca. Podem lamuriar e protestar, e com o furor de um louco resisti-lo como nunca, mas finalmente serão compelidos a sentir que aquele , a quem se recusam honrar com seu rei, é seu juiz. Em que aspecto a doutrina do evangelho é uma vara de ferro, pode deduzir-se da Epístola de Paulo aos Coríntios [ 2 Co 10:4 ], onde ele ensina que os ministros de Cristo são equipados com armas espirituais para lançar abaixo todo elemento elevado que se exalta contra Cristo.

[...] entretanto, visto que não vemos os inimigos do Redentor imediatamente despedaçados, mas, ao contrário, a Igreja mesma é que parece ser como o frágil vaso de barro debaixo dos martelos de ferro deles, os santos necessitam ser admoestados a considerar os juízos que Cristo executa diariamente como presságio da terrível ruína que está reservada para todos os ímpios e a esperar pacientemente pelo último dia, quando os consumirá completamente pelo ardente fogo no meio do qual ele virá. Nesse ínterim, descansemos satisfeitos porque ele “ reina no meio dos seus inimigo”.

Fonte: Comentários em Salmos 2: 8-9. Editora Fiel: pp. 61-64.


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