
Depois da oração,
o cantar louvores a Deus é também considerado um dever religioso. Isso pode ser
feito de maneira privada, individualmente e a sós (Tg 5:13), entre dois ou
mais, como Paulo e Silas que cantaram louvores a Deus em voz alta na
prisão (At 16:25), e em família, entre marido e esposa, com seus filhos e
servos: Tertuliano [1] fala sobre esse canto
privado dos salmos em família argumentando que é uma boa razão para o casamento entre cristãos e que no contexto
familiar pode ser feito de maneira melhor e mais harmoniosa. De todo modo não é
nesse âmbito que pretendo dissertar, mas sim sobre o canto dos louvores a Deus
como de instituição divina e parte do culto público.
1. Para mostrar o que é cantar
segundo a ideia comum que temos, como um ato natural da voz e um dever
religioso distinto de outros atos da religião, é preciso considerar o cantar no
seu sentido próprio e impróprio. Quando utilizado de maneira imprópria, é
atribuído a criaturas inanimadas, o céu, a terra, montanhas, morros, florestas,
árvores do bosque, as pastagens, os rebanhos, os vales cobertos com grãos,
cantando e gritando de alegria ou sendo exortados a isso (Is 44: 23, 49:13; Sl. 65:12-13). Cantar, tomado em um sentido
estrito e próprio, como um ato natural, é um ato da língua ou da voz, embora
nem toda ação da língua ou o som da voz pode ser chamado de canto. A fala é uma
ação da língua, mas nem todo tipo de discurso é um canto. Cantar é falar
melodiosamente, musicalmente ou com modulação da voz. Estes dois sons, falar e
cantar, não têm a mesma ideia anexa a eles. A ação de graças que um homem dá antes
e depois de uma refeição, pedindo uma bênção de Deus sobre sua comida, conforme
o uso comum da palavra na oração a Deus e em conversa com os homens, deve ser
considerado fala; o contrário, canto, seria se o mesmo estivesse dando ação de
graças antes e depois da refeição de uma forma tônica, musical e com modulação
da voz. Não é qualquer clamor da língua ou som da voz que pode ser chamado de
cantar, caso contrário por que considerar o suave gorjear da rola e o som melodioso
dos pássaros como um canto (Ct 2:12)
mais do que o som da voz de outros animais, tais como, o rugido do leão, o
mugido do boi, o balido das ovelhas, o relinchar dos cavalos, o zurro do
jumento, o latido do cão ou a grunhir do porco? Os gritos ruidosos e clamorosos
dos conquistadores, as notas impertinentes, os gritos e choros dos vencidos são
muito diferentes de uma voz de júbilo. Quando Moisés e Josué desceram do monte,
Josué disse: "Há um barulho de guerra no o acampamento”, e ele (Moisés) disse: “Não é alarido dos vitoriosos, nem alarido dos
vencidos, mas o alarido dos que cantam, eu ouço” (Ex 32: 6,17,18). Cantar musicalmente com
a voz, como ação religiosa, é diferente de todos os outros atos e exercícios
religiosos. É diferente:
1 a. Da oração: Tiago fala do orar e do cantar como duas maneiras distintas de adoração ( Tg 5:13-16). O apóstolo Paulo assim também considerava: "Orarei com o Espírito e Cantarei com o Espírito.” Se ele considera essa distinção, doutro modo devemos acusá-lo de uma tautologia muito grande (1Co 14:15). Paulo e Silas na prisão cantavam e louvavam ao Senhor, que são evidentemente dois exercícios distintos (Atos 16:25).
1b. De dar graças: Cristo na instituição da Ceia deu graças. Isso ele fez como um ato particular e individual; mas depois do jantar ele e seus discípulos cantaram um hino ou salmo juntos. O apóstolo exorta a igreja de Éfeso a cantar salmos, hinos e cânticos espirituais depois de fazer menção de “dar graças a Deus em nome de Cristo”, como um dever distinto obrigatório (Mt 26:26-30; Ef. 5:19-20).
1c. Do louvar a Deus: pois, embora o canto seja um louvor a Deus, mas nem todo louvor é canto. Cantar é apenas um tipo de louvor a Deus; porém há outros. Louvamos a Deus quando, adoramos a sua perfeição, quando falamos bem dela na pregação, no discurso comum, quando damos graças a ele em oração por suas misericórdias temporais e espirituais e quando o glorificamos com as nossas vidas e conversas. Em nenhum desses sentidos é para se dito que louvar é apenas cantar. Se tudo é para ser considerado louvor, então, tudo isso deve ser considerado canto!
1d. É diferente de alegria
espiritual interior: que é forjada na alma pelo Espírito de Deus e surge a
partir do interesse da pessoa no amor de Deus, na aliança da graça, na pessoa
no sangue, na sua justiça e sacrifício expiatório de Cristo. Isso capacita uma
pessoa a cantar louvores para Deus, mas também, é distinto disso. "Está alguém alegre?"
Alguém está em um bom estado de alma?
Então, “cante
salmos.” O estado e o dever
são coisas diferentes; a alegria espiritual não é canto, mas é a causa e a
razão disso, e faz com que um homem seja capaz de realizá-lo da melhor maneira.
1e. Da oração mental: embora exista a oração mental, não existe tal coisa como canto mental ou o cantar no coração, sem a voz. Falar ou pregar sem a língua ou a voz não são maiores contradições, ou melhor, impossibilidades, do que canto sem voz ou língua. Tal hipótese não é adequada para nenhum regime, exceto o dos quarks. E podemos muito bem ter nossas reuniões silenciosas, pregações mudas, a oração silenciosa e canto silencioso: "Cantando e fazendo melodias no coração", não é outra coisa senão o cantar com ou do coração ou de coração, ou melhor, utilizando-se de outra expressão, "com graça no coração”, ou seja, o exercício da mesma [2]; isso não exclui a voz no canto, mas hipocrisia no coração, e requer sinceridade, como um homem culto observa [3]. Continuo.
2. Para provar que o cantar
louvores a Deus sempre foi um ramo da religião natural ou revelada em todas as
épocas e períodos de tempo, e sempre será.
2a. Era uma parte do culto a Deus pelos pagãos. Como a oração é um dever natural e moral, do mesmo modo o cantar louvores a Deus. Os homens pela luz da natureza são direcionados a orar a Deus quando estão em perigo ou quando precisam de misericórdias (Jn1:6); assim também cantam louvores a Deus pelas misericórdias recebidas. Um escritor [4] moderno observa que "As religiões diferem em quase tudo nas mais variadas épocas e diferentes nações, mas na solenidade do cantar hinos e cânticos todas concordam.” De acordo com Platão o tipo mais antigo de poesia estava naquelas devoções a Deus chamadas de hinos [5]. A importância e vultuosidade creditadas a Homero [6] se devem aos hinos que ele compôs às divindades e entre suas obras ainda existe um hino a Apolo. Assim como Orfeu, antes dele, também compôs hinos as mais variadas divindades. Toda a ciência da música foi empregada pelos gregos antigos na adoração de seus deuses, conforme atesta Plutarco [7]. Uma parte do culto religioso dos egípcios consistia em hinos às suas divindades. Esses hinos eram adequados segundo a dignidade de cada uma delas. A entoação deles acontecia de manhã, à noite e ao meio-dia, conforme atestam Clemente de Alexandria e Porfírio. Os índios também passam a maior parte do dia e da noite em orações e hinos aos deuses, como afirma um destes últimos conhecidos escritores [8]. Notável é a palavra de Arrianus, filósofo estóico [9], que diz: "Se somos criaturas inteligentes, o que mais devemos fazer, tanto em público como em privado, do que a cantar um hino à Divindade? Se eu fosse um rouxinol, eu faria como um rouxinol; se eu fosse um cisne, como um cisne; mas como sou uma criatura racional, devo louvar a Deus e exorto-vos a fazer o mesmo: este é o meu trabalho enquanto eu viver, cantar um hino a Deus, tanto de maneira privada como na presença de muitos.” A partir destes e outros casos observados, podemos concluir que os gentios são dirigidos pela luz da natureza, e, pela lei da natureza, obrigados a execução desse elemento do culto. Consequentemente o cantar é uma parte da religião natural.
2b. O cantar louvores foi praticado pelo povo de Deus antes da promulgação da lei de Moisés. O octogésimo oitavo e octogésimo nono salmos são considerados por alguns como [10] as mais antigas peças escritas no mundo, remontando muito antes do nascimento de Moisés. Foram compostas por Heman e Ethan, dois filhos de Zerá, netos de Judá. O primeiro salmo é uma elegia fúnebre sobre o estado miserável de Israel no Egito. O segundo canta profeticamente com alegria a libertação do povo dessa escravidão. O salmo nonagésimo foi escrito pelo próprio Moisés em uma época não revelada, no entanto, é certo que Moisés e os filhos de Israel cantaram uma música após a passagem do Mar Vermelho e da destruição dos egípcios nele. Parece que será cantado novamente quando o Faraó anticristão e os poderes anticristãos forem destruídos pelos conquistadores cristãos que estarão de pé sobre um mar de vidro, com as harpas de Deus em suas mãos (Ex 15:1; Ap 15:2-3). Agora esses cantos antes da lei de Moisés não foram feitos por instituição cerimoniosa, nem por ser parte do culto peculiar à dispensação levítica; nem por nenhuma lei positiva de Deus para os filhos dos homens conforme conhecemos, mas foram cantados pelos israelitas segundo os ditames de suas consciências e exemplos de outros antes deles que os influenciaram a clamar ao Senhor quando em perigo, cantar louvores quando fossem libertos.
2c. Não era uma parte do serviço divino peculiar a Israel sob a lei, mas a salmodia só floresceu com maior importância sob a direção e influência de Davi. Ele, em muitos de seus salmos, convida e exorta as nações da terra para cantar os louvores de Deus: "Celebrai com júbilo ao Senhor, todas as terra" ou "toda a terra;”; “Louvem-te a ti, ó Deus, os povos; louvem-te os povos todos”; “Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR toda a terra” (Sl 66:1-2; 67:3-5; 96:1). Agora se cantar não era uma parte do culto moral, mas de um tipo cerimonioso, as nações da Terra não teriam nenhuma preocupação com isso tampouco lhes seria obrigatório.
2d. Quando a lei cerimonial estava em sua maior glória e os sacrifícios na mais alta estima, o cantar dos salmos foi preferido como mais aceitável a Deus do que a oferta de um "boi ou bezerro” (Sl 69:30-31). Agora nenhuma outra razão dessa preferência pode ser dada, mas que o sacrifício de um boi era de instituição cerimonial, enquanto o cantar louvores a Deus era uma parte do culto moral que deveria ser feito de modo espiritual e evangélica.
2e. Quando a lei cerimonial com todos os seus ritos foi abolida, este dever de cantar os louvores de Deus permaneceu em pleno vigor. Ao mesmo tempo em que o apóstolo diz às igrejas que a lei dos mandamentos foi abolida, não precisando mais eles ser julgados com respeito a carnes, bebidas e dias santos, visto que eram sombras do porvir; ele os exorta fortemente a cantar salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 2:14-15; 5:19, Cl 2: 16-17; 3:16). Agora não é razoável supor que o apóstolo nas mesmas epístolas escritas para as mesmas pessoas declare-as desobrigadas a cumprir alguns mandamentos e sob a obrigação de guardar outros , se todos eles pertenciam à mesma lei cerimonial.
2f. Que as igrejas de Cristo sob a dispensação do evangelho deveriam cantar louvores, tem cantado e ainda devem cantar a Deus em alta voz, se constata.
2f1. Desde as profecias do Antigo Testamento. Em muitos dos salmos que falam dos tempos do Messias, as igrejas são convidadas a cantar louvores a Deus. Os Salmos quarenta e sete, sessenta e oito, noventa e cinco e muitas profecias de Isaías declaram que não só os vigias, isto é, os ministros da palavra, "devem levantar a voz e cantar juntos", mas toda a igreja "deve irromper em alegria e cantar junta" (Is 52:7-9; 26:1; 35:1-2; 54:1). Bendito seja Deus que estas previsões em grande parte foram cumpridas! As igrejas do Evangelho entre os gentios, bem como na Judéia, levantaram suas vozes e cantaram louvores a Deus segundo as profecias;
2f2. Isso também é evidente a partir de preceitos expressos e orientações dadas para as igrejas do evangelho que lhe digam respeito; não é só profetizado no Antigo Testamento, mas é ordenado no Novo; Particularmente as igrejas de Éfeso e Colossos foram expressamente instadas a cantar "salmos, hinos e cânticos espirituais" (Ef 5:19; Cl 3:16); e instruções são dadas sobre que qual maneira deveriam cantar, o que será observado a seguir.
2f3. A partir de instâncias e
exemplos do Novo Testamento. Cristo e seus discípulos cantaram um hino ou
salmo juntos na celebração da Ceia do Senhor. O que eles fizeram como igreja,
na qual Cristo canta um hino e os discípulos juntamente com ele (Mt 26:30) Em Hebreus 2:12 a igreja em Corinto também foi
instada a cantar Salmos [11]. Embora
no tempo dos apóstolos houvesse distúrbios entre os coríntios na execução dessa
ordenança, a mesma era para ser observada conforme as regras dadas por Paulo (1Co 14:26).
2f4. Esta prática de cantar louvores a Deus, iniciada nos primeiros tempos do cristianismo, continua até o presente momento. Plínio [12], um pagão, em sua carta a Trajano o imperador, escrita no fim do primeiro ou início do século II, no intuito de acusar os cristãos, diz que "eles se reúnem em um dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus”. Tertuliano [13] no início do terceiro século fala da leitura das escrituras, do canto dos salmos, da pregação e da oração como parte do culto público. Orígenes [14], um pouco mais tarde, ainda no mesmo século, observa a necessidade do Espírito de Deus para ajudar a cantar salmos e hinos a Deus em Cristo com boa rima, melodia, métrica adequada, e de maneira vocal. Se fosse para continuar os relatos durante os séculos posteriores, as provas seriam muito numerosas, quiçá, infinitas [15]. Mas para o momento é suficiente observar o livro do Apocalipse que é uma representação do serviço das igrejas de Cristo na terra, bem como de seu estado, condição, sofrimentos e libertação em todos os períodos de tempo até a segunda vinda de Cristo; frequentemente mostrando o cantar louvores a Deus como uma prática sempre constante na igreja (Ap . 4:9-11; 5:9-13; 7:10-12); particularmente nos trechos que fazem menção da reforma do papado, da queda da Babilônia e do anticristo (Ap 14:1-8, 15: 2, 3, 19:1-7), quando o reino espiritual de Cristo será instaurado e "desde os confins da terra se ouvirá cantar: Glória ao justo" (Is 24: 16). Ainda durante o milênio, na primeira ressurreição, quando o reinado pessoal de Cristo se iniciar, os ressurretos irão cantar e terão razão para isso: "Despertai e exultai os que habitam na poeira" (Is 6:19). Em suma, quando as demais ordenanças cessarem, o cantar louvores a Deus estará em sua maior glória e perfeição (Is 35: 10).
3. O que está para ser cantado, ou objeto de canto, e o rumo segue em
direção aos três, “salmos, hinos e cânticos espirituais” (Ef. 5:19; Col. 3:16).
3a. Por “Salmos” deve-se entender o Livro dos Salmos, composto por Davi, Asafe e outros, mas principalmente por Davi, daí ele ser chamado de "o doce salmista de Israel" (2Sm 23:1). Este é o único sentido usado para palavra salmos em todo o Novo Testamento. Não há qualquer razão para acreditar que o apóstolo Paulo projete qualquer outro sentido nos locais referidos, nem muito menos o apóstolo Tiago, em Tg 5:13. Aqueles que pensam diferente devem mostrar o outro sentido e onde em que a palavra é usada que não seja para os "Salmos de Davi" e outros, pois é certo que há salmos que devem ser cantados sob a dispensação do evangelho.
3b. Por "hinos" não se deve entender as meras composições humanas, uma vez que não se deve conceber o apóstolo ordenando cantar essas produções com o mesmo nível daquelas inspiradas pelo Espírito Santo. Na realidade hinos é mais outro nome dado ao Livro dos Salmos, com assim concebe Ainsworth [16]. O salmo cento e quarenta e cinco é chamado de hino de Davi. Nosso Senhor cantou um salmo com os seus discípulos após a Ceia, que nas Escrituras está a se chamar de hino. Do mesmo modo os salmos de Davi são chamados de "hinos" tanto por Josefo [17] como por Filo, o judeu [18].
3c. Por "cânticos espirituais" também se deve entender os mesmos salmos de Davi, Asafe e outros. Os títulos de algumas dessas canções às vezes vêm como "um salmo e música, uma música e salmo ou uma canção de graus” e similares. Essas canções juntamente com todas as outras músicas espirituais escritas por homens inspirados por Deus são chamadas de "espirituais" porque o autor e calígrafo delas foram inspirados pelo Espírito de Deus. O assunto delas é espiritual, útil para a edificação espiritual e se opõem a todas as músicas soltas, profanas e lascivas. Como essas três palavras, "salmos, hinos e cânticos espirituais" se adéquam com propriedade ao Livro dos Salmos de Davi e, segundo a "Septuaginta" pelas palavras gregas usadas pelo apóstolo, pode-se razoavelmente concluir que era essa a intenção de Paulo ao exortá-los a cantar salmos, hinos e cânticos espirituais. Não nego que a Palavra de Deus e Cristo forneçam tema para cantar, mas que de tais hinos e cânticos espirituais, composto por bons homens não inspirados, possa se fazer uso deles, ao ponto de torná-los tão agradáveis quanto os Escritos sagrados e à analogia da fé. Tertuliano [19], falando no seu tempo, diz que tais hinos, como eram composições sob a luz (ou inspirados na Sagrada Escritura) da Sagrada Escritura ou "de próprio engenho", em comparação com as canções entoadas pelos irmãos em louvor a Cristo, eram tomados como Palavra de Deus entre os hereges [20].
4. O canto dos salmos é para ser
feito:
4a. Socialmente e com vozes unidas; assim Moisés e os filhos de Israel cantaram no Mar Vermelho; assim Cristo e seus discípulos cantaram após a Ceia do Senhor; assim os vigias cantarão no último dia todos juntos; assim Paulo e Silas cantaram na prisão e assim as igrejas são exortadas a cantar em Ef 5: 19 e Cl 3:16;
4b. Com o coração e com a boca, como quem estivesse fazendo "melodia no coração" (Ef 5:19); cantando com sinceridade e verdade e não como os israelitas que lisonjearam a Deus com os lábios cantando-lhe louvores, mas logo se esqueceram das obra dele;
4c. "Com graça no coração" (Cl 3:16). Com varias graças; assim como uma só nota não faz melodia, mas uma mistura de notas, assim como muitas vozes unidas em um som se faz um coro [21], cantar deve ser com muitas graças, com fé em Deus, sem a qual é impossível agradá-Lo; com amor, carinho, reverência e temor a Deus, porque Ele é digno de ser louvado com grande temor e reverência pela sua Majestade;
4d. "Com o Espírito" como o apóstolo Paulo determina fazer (1Co 14:15); Com o Espírito de Deus, cuja ajuda é necessária assim como na oração; com nosso espírito, sinceramente, fervorosamente, afetuosamente e de maneira espiritual, adequada à natureza de Deus, que é Espírito;
4e. "Com o entendimento” e com a compreensão do que se está cantando; com uma linguagem clara de maneira que possa ser entendida por todos; com ensino e admoestação não só para nós, mas para "ensinar" e "admoestar" os outros. Talvez a advertência do apóstolo aqui tenha alguma relação com um dos títulos dos salmos de Davi, "Masquil", um salmo de instrução;
4f. Visando a glória de Deus, pois nós somos chamados a "cantar ao Senhor” e não a nós mesmos para aumentar as nossas afeições naturais ou para ganhar o aplauso dos outros pela harmonia de nossa voz, mas objetivando a glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo, o único Deus.
5. Resta agora responder a
algumas das principais objeções feitas ao canto dos salmos, principalmente
contra a sua matéria, forma de cantar e as pessoas, ao menos algumas delas, que
se juntam neste serviço.
5a. Primeiramente, considerarei as objeções contra a matéria e a forma de cantar os salmos de Davi:
5a1. Que os salmos não foram escritos originalmente metrificados, portanto, não devem ser cantados nem traduzidos em métrica para tal finalidade. O contrário a isso é universalmente feito pelos judeus a partir da diversidade de acentuações daquele livro em comparação com os demais. É sabido, tanto por antigos como por modernos, que os judeus são as pessoas mais qualificadas em língua hebraica para execução dessas acentuações. Josefo [22] diz que Davi em uma época de paz compôs canções e hinos divinos com várias métricas, alguns trissílabos, isto é, com três sílabas poéticas, e outros pentassílabos, de cinco sílabas poéticas. Jerônimo [23], que de todos os pais melhor compreendeu a língua hebraica, classifica os salmos como gênero lírico, comparando Davi a Píndaro, Horácio e outros, e para a métrica dos salmos apela para Philo, Josefo, Orígenes, Eusébio e outros. Gomarus [24] deu centenas de versos dos Salmos que concordam com os de Píndaro e Sófocles [25]. Segundo a concepção de alguns eruditos, a palavra “salmo” significa métrica [26]. Assim, desde que os Salmos foram escritos originalmente metrificados, é lícito traduzi-los metrificados a fim de serem cantados nas igrejas de Cristo.
5a2. Objeta-se que o Livro dos Salmos não seja adequado para ser cantado nas igrejas sob a dispensação do Evangelho. Não há nada mais adequado para ser cantado nas igrejas do que o Livro de Salmos, pois ele está repleto de profecias sobre a pessoa do Messias, seu sofrimento e morte, ressurreição e ascensão à destra de Deus. Isso fica mais claramente compreendido e adequado para ser cantado de forma evangélica. O Livro de Salmos está cheio de promessas preciosas, é um grande fundo de experiência, uma rica mina do evangelho da graça e da verdade; é muito adequado para cada caso e condição da igreja de Cristo. Um crente em particular pode com prudência e cuidado escolher os salmos adequados a cada ocasião.
5a3. Objeta-se que nesse livro há salmos com muitas promessas feitas pelo salmista e que o cantá-las seria mentir para Deus. Há também outros bastante chocantes, com maldições e imprecações aos homens maus, e parecem mostrar um desejo de que a caridade é recomendada no evangelho. Respondendo a essas objeções: que os casos de canto não a nossa, não são mais mentir para Deus do que lê-los é, do mesmo modo também seria o ler que é uma forma mais lenta de pronúncia que a musical. Além disso, quando cantamos os casos de outros não o cantamos como nossos. Isso pode ser útil como conselho, conforto, instrução para alguns, quando cantados em público, embora não sejam adequados para outros. A mesma analogia também se observa na oração pública, onde cada petição não é adequada para todos. Quanto às maldições e imprecações contra os homens maus, estas podem ser evitadas, não somos obrigados a cantar todas as que estão nos salmos. Ademais elas podem ser consideradas apenas como sugestões proféticas sobre o que acontecerá aquelas pessoas, e o cantá-las pode ser feito com o objetivo de enaltecer a glória de Deus e também servir como instruções para nós mesmos, uma vez que dessas passagens se pode observar a justiça e santidade de Deus, a natureza vil do pecado, a indignação e a aversão de Deus contra ele.
5a4. Insiste-se que ao cantar os salmos de Davi e outros, é cantar a partir de uma forma já estabelecida, logo por que não orar também do mesmo modo? O que eu respondo a essa objeção: O modo como se procede com os dois elementos, o cantar e o orar, é diferente. O primeiro deve ser executado a partir de uma forma já estabelecida; o segundo, como é prometido um Espírito de súplica, é para ser feito de maneira espontânea e não com um Espírito de poesia. Se na igreja antiga um homem tinha o dom extraordinário para expressar-se por meio de um salmo ou hino de improviso, isso já seria uma forma estabelecida para os outros se juntarem a ele no canto. O resultado disso é que teríamos um livro de salmos, e não um livro de orações. Os Salmos de Davi foram compostos para serem cantados de maneira fixa (ver 1 Cr 16:7; 2 Cr 29:30). Daí por que o povo de Deus não é instado a fazer um salmo para oferta, mas o de “trazer um salmo” já pronto nas suas mãos (Sl 81:1-2).
5a4. Insiste-se que ao cantar os salmos de Davi e outros, é cantar a partir de uma forma já estabelecida, logo por que não orar também do mesmo modo? O que eu respondo a essa objeção: O modo como se procede com os dois elementos, o cantar e o orar, é diferente. O primeiro deve ser executado a partir de uma forma já estabelecida; o segundo, como é prometido um Espírito de súplica, é para ser feito de maneira espontânea e não com um Espírito de poesia. Se na igreja antiga um homem tinha o dom extraordinário para expressar-se por meio de um salmo ou hino de improviso, isso já seria uma forma estabelecida para os outros se juntarem a ele no canto. O resultado disso é que teríamos um livro de salmos, e não um livro de orações. Os Salmos de Davi foram compostos para serem cantados de maneira fixa (ver 1 Cr 16:7; 2 Cr 29:30). Daí por que o povo de Deus não é instado a fazer um salmo para oferta, mas o de “trazer um salmo” já pronto nas suas mãos (Sl 81:1-2).
5a5. É observado que os Salmos de David eram cantados formalmente com o uso de instrumentos musicais, tais como a harpa, tamborim, pratos e órgãos. Se então eles são cantados agora, por que não com estes instrumentos como antes? E se estes estão em desuso, por que não cantar sem eles? Eu respondo que o uso de instrumentos musicais não era essencial para cantar e, portanto, estes devem ser postos de lado. Era costume queimar incenso no momento da oração; agora o uso do incenso, que era típico da aceitação das orações dos santos, através da mediação de Cristo é deixado de lado, mas o dever da oração, sendo de natureza moral, continua. Os instrumentos acima foram utilizados na dispensação do Antigo Testamento quando a igreja era vistosa, berrante e pomposa, adaptada então ao seu estado infantil. Conforme um antigo escritor [27] observa “as cerimônias da igreja dos judeus eram aptas para bebês, mas nas igrejas sob a dispensação do evangelho, que é mais viril, o uso destas é tirado, permanecendo apenas o cantar." Quanto aos órgãos citados no Salmo 150:1-6, a palavra utilizada significa um outro tipo de instrumento dos que atualmente estão em uso; Estes foram introduzidos pela primeira vez por um papa romano, Vitalianus, não antes do VII século . [28]
5b. Em segundo lugar, há algumas objeções contra as pessoas que se juntam nesse serviço de cantar salmos:
5b1. Que as mulheres não devem cantar nas igrejas, porque o apóstolo diz que mulheres estejam caladas porque não lhes é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei (1 Co 14: 34-35). De onde se depreende que, se as mulheres devem ficar em silêncio e não falar na igreja, então eles não devem cantar ou falar para si mesmas e aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais. Ao que eu respondo: é evidente que o Apóstolo é para ser entendido sobre o ensinar em público que carrega em si a autoridade sobre o homem, por isso ele se explica em outro lugar que as mulheres aprendam em silêncio, com toda a sujeição. Mas eu não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o homem, mas que esteja em silêncio (1Tm. 2:11,12). É certo que todos os tipos de falar na igreja não são proibidos às mulheres, caso contrário não seria lícito para elas dar conta do trabalho de Deus sobre suas almas, nem poderiam ser testemunhas a favor ou contra qualquer membro da igreja que esteja em iniquidade. Nestes casos, elas têm, sem dúvida, todo o direito e devem ter a liberdade de falar na igreja. Quanto ao canto dos salmos, embora como um antigo escritor observa [29]: "que mesmo o Apóstolo dizendo que as mulheres devam ficar em silêncio na igreja, elas devem realizar bem este serviço ( O cantar dos salmos), que o mesmo é agradável para todas as idades e lícito para ambos os sexos". E, de fato, se esta é uma parte do moral do culto, como tenho suficientemente provado que é, deve ser um dever que lhes pertencem. Além disso, tem sido praticado por elas em todas as épocas da igreja: Miriam e as mulheres israelitas cantaram com Moisés e os filhos de Israel no Mar Vermelho; o mesmo fez Débora com Baraque. Não temos conhecimento de mulheres cantando no serviço do templo, mas há uma profecia sobre a época do evangelho, no qual é dito em Jr 31:8-12 que um grande número de cegos, coxos, mulheres grávidas e de parto deveriam vir para cantar no alto de Sião, o que mais é profecia sobre a mulher em 1 Coríntios 11:5. Embora o Apóstolo não se oponha ao cantar dos salmos pelas mulheres na igreja, elas não devem fazê-lo com a cabeça descoberta. Ainda sobre essa profecia de Jeremias, certo escritor [29] explica que a mesma foi claramente utilizada pelo Apóstolo em 1 Co 14:15, 24, 26.
5b2. Outra objeção: o canto dos incrédulos junto com os crentes é impertinente. Ora, o cantar louvores a Deus, assim como a oração, é um dever moral e vinculativo para todos os homens, quer seja crente ou incrédulo, apesar de o primeiro cantar de uma maneira espiritual e evangélica. Mas também os incrédulos são obrigados a cantar da melhor maneira que puderem e isso pode ser um empecilho para identificação dos tais numa assembleia; o contrário acontece com menos frequência na oração publica. Além disso, tem sido a prática dos santos, de todas as épocas, cantar em assembleias mistas: havia uma multidão misturada que saiu do Egito com os israelitas, em cuja companhia eles cantaram no Mar Vermelho; é provável que os mesmos tenham se assimilado com os israelitas, uma vez que compartilharam da mesma libertação; Davi cantou os louvores de Deus entre os gentios (Sl 18:49; Sl 51:9). Ademais as obras do Senhor, os seus prodígios e a sua glória devem ser anunciados entre todos (Sl 9:11, 96:3). Isso é muito útil para conversão dos homens, conforme bem ilustrou o Bispo Burnet [30] na sua Historia da Reforma do Papado quando afirma que durante aquele período milhares de almas se converteram a Cristo. Agostinho [31] por experiência própria diz: "Quanto eu chorei em teus hinos e canções, sendo extremamente comovido com a voz da tua igreja; um som de vozes docemente perfurando em meus ouvidos, a tua verdade derreteu meu coração e a partir dali afetos piedosos foram surgindo e as lágrimas corriam dos meus olhos.”
5b3. Objeta-se que o cantar não é adequado a pessoas em estado de angústia, mas apenas quando as mesmas estiverem em situação boa e confortável, conforme especifica Tg 5:13. O que eu respondo: também as pessoas em estado de tribulação, aflição e angustia, além de ser instadas a orar, também são exortadas a cantar salmos, segundo vemos nas Escrituras. Que condição mais angustiosa poderia um homem estar do que aquele em que Heman, o ezraíta, quando escreveu e cantou o Sl 88:1-18? O que dizer do canto entoado pela igreja no deserto, nos dias de sua juventude, quando ela saiu da opressão do Egito? Isso também não era uma profecia de que ela deveria continuar cantando como igreja no deserto onde ainda está, como igreja que é sustentada com a palavra e as ordenanças por um tempo, e tempos, e metade de um tempo? (Os 2:14- 15; Ap 12:14).
NOTAS:
[1] Ad uxorem, l. 2. c. 6. p. 190. c. 8. p. 191.
[2]
"Necesseest hic in corde, ex cordeintelligi, scilicet, ut non solum ore,
sedetiamcordecantemus," Hieron. in Col.. 3. 16.
[3] Zanchius in Eph.. v. 19.
[4]
Lowth. de Sacr. PoesiHb ..Praelect.1. p. 21.
[5] Deut.
Legibus, l. 3. p. 819. Ed. Ficin.
[6] Heródoto de vitaHomeri, c. 9. p. 558. Ed.
Gronov.
[7] Deut.
Musica, p. 1140.
[8] Ver o meu sermão sobre o Cantar, p. 10, 11.
[9] Arriano. Epicteto, l. 1. c. 16. & L. 3. c.
26.
[10] Lightfoot, vol. 1. p. 699, 700.
[11] Ver a antiga tradução desse texto em um
trabalho meu sobre Canto na qual eu defendo que se foi um hino ou salmo , p.
34, 35, & c.
[12] Ep.
l. 10. ep. 97. vid. Tert.Apol. c. 2. &Euseb. Ec .. Hist. l. 3. c. 33.
[13] Deut. Anima, c. 9.
[14] Perieuchv c. 6. p. 7. Ed. Oxon. 1686.
[15] Ver o meu sermão sobre o Cantar, p. 45, 46,
& c.
[16] "Vox umnoi, cum Hebraeo titulo Mylht
multo Meliuscongruit". Lowth.
[17] Antiq. l. 7. c. l2.
[18] L. de mutat. nom. et l. de Somnis, et alibi.
[19]
Apolog. c. 39.
[20]
Euseb. Hist. Eccl. l. 5. c. 28. & L. 7. c. 30.
[21] Sêneca, Ep. 84.
[22] Antiq. l. 7. c. 12.
[23] Ep.
ad Paulin. tom. 3. fol. 3. 2. praefat. in lib. Job fol. 8.2.
[24] Davidis Lyra inter óperaejus, t. 2. p. 317,
& c.
[25] Ver o meu discurso sobre Cantar, p. 23, 24.
[26] rwmzm ", metrum, velnumeros,
sivequamGraeciruymon, vocant, significat", Lowth. deSacr. PoesiHb ..
Praelect. 3. p. 40. in marg. & Praelect. 4. p. 44. vid. Gejerum,
&Michaelem, in Salmo III. 1.
[27]Autor. Qu. et. Respons. inter opera Justin. p.
462.
[28] Platina de vitis Pontif. p. 86.
[29] Obras, vol. 2. p. 785, 1157. ver Targum Jon ..
em 1 Sam. x. 5. E xix. 20, 23, 24.
[30] Hist. da Reforma, vol. 2. p. 94.
[31] Confissão. l. 9. c. 6.
Tradução: Luciano de Oliveira
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