sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O ódio de Deus- John Gill




Há alguns [1] que negam que o ódio pertença a Deus ou que ele odeia qualquer coisa  e para justificar a afirmação instam passagem dos apócrifos:

"Tu amas todos os seres  e não  odeias nenhum desses que fizeste;'' (Sabedoria 11:24)

As criaturas de Deus, como são criadas por Ele, são todas  muito boas  e  por conseguinte são amadas e não odiadas por Ele. Também o ódio de Deus não é para ser considerado uma paixão, assim como nos homens, uma vez  Ele é um espírito puro, ativo e é o único agente e não um paciente capaz de sofrer qualquer coisa;  muito menos o seu ódio é uma paixão criminosa como nos homens que são descritos,  como "odiosos"  e "odiando uns aos outros" (Tt 3:3) já que Ele é sem nenhuma iniqüidade e seu ser é perfeitamente santo. Mas as Escrituras em muitos lugares dizem que Deus odeia  tanto  pessoas  como  coisas (Sl 5:5, Zc. 08:17) e isso com toda verdade e razão pode ser  concluído a partir do  Seu amor,  embora  seja usado como um argumento  contra Ele. Todavia onde há amor por  qualquer pessoa ou coisa haverá um ódio ao que é contrário ao objeto amado: os homens bons amam coisas e pessoas  boas, assim como eles, e odeiam o que é mau; Eles amam a Deus e odeiam o pecado, o mal tão diametralmente oposto a ele (Sl 97:10; Am 5:15). Então como o Senhor é justo e ama a justiça e o seu povo  que está vestido da justiça de Cristo e anda nos caminhos da justiça, odeia a injustiça e os homens injustos, porquanto o Filho de Deus diz: "Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros" (Sl 45:7). Além disso,  é uma virtude da  graça que os homens de bem  odeiem o mal  que habita neles e  que  é cometido por eles como fez o apóstolo (Rm 7:15); sem a graça de Deus não é possível  odiar o pecado  e aqueles que o praticam como assim fez Davi quando  apelou  para Deus: "Não odeio eu, ó SENHOR, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito " (Sl 139:21-22). Agora, se é uma virtude ou devido à graça de Deus  nos seus  filhos que os fazem  odiar  os pecadores “com ódio perfeito”, então isso deve vir de Deus  de Quem provém toda boa dádiva;  conseqüentemente  essa virtude  deve ser Nele  em um grau mais elevado, na forma mais perfeita.  Desse modo, quando atribuído a Deus, o ódio não significa outra coisa além da Sua vontade de punir o pecado dos homens (Sl 5:5-6),  por isso é um ato de justiça, de justiça punitiva. "É Deus injusto, que toma  vingança?" Não é ele justo em todas as suas obras (Rm 3:5)? Para a ilustração adicional desse ponto  vou considerar o que é e  quem são os objetos do “ dito ” ódio de Deus.


1. Deus odeia o pecado e não o pecador. Isso é consistente com a sua natureza  não odiar qualquer de suas criaturas. O pecado não é criação dele nem é ele  o autor do pecado; todas as criaturas que ele fez foram  muito boas, mas o pecado não estava  entre elas; toda a criatura de Deus é boa e não é para ser recusada, rejeitada ou odiada pelos homens, como ninguém é de Deus. O pecado deve ser odioso para Deus, uma vez que  é contrário a sua natureza, a sua vontade e a sua justa lei. Todo pecado é uma abominação para ele, mas existem alguns que são particularmente odiados por ele: a idolatria (Dt 16:22; Jr 44:3-5), o perjúrio (Zc 8:17), todos atos insinceros e hipócritas de culto (Is 1:14, 15; Am 5:21), os pecados contra as duas tábuas  da lei, como assassinato que está entre as seis coisas que Deus mais abomina (Pv 6:16 - 18), a  fornicação,  o adultério (Ap 2:6, 15), o furto, o roubo, a rapina,  a violência de todo tipo, todo tipo de prejuízo às pessoas e propriedades dos homens (Sl 11:05; Is 61:8) e cada coisa mal que um homem possa fazer contra o seu próximo (Zc 8:17). Tudo isso é válido  para cada uma das pessoas divinas. Deus-Pai  demonstrou o seu ódio ao pecado através dos seguintes juízos: a condenação  para o inferno dos anjos que pecaram levando Adão e Eva do paraíso;  muitos outros juízos em tempos posteriores e mais tarde através de castigos contra o seu próprio povo quando eles transgrediram  a sua lei. Mas ódio de Deus contra o pecado se tornou mais evidente quando Deus enviou seu Filho  para ser  Fiador e Salvador dos pecados do seu povo e condenação  dos ímpios para toda a eternidade. O Filho de Deus deu provas suficientes de sua justiça amorosa e  do seu ódio ao pecado, falando isso  expressamente em  Sl 45:7 e  Hb 1:8- 9;  tomando o oficio divino de mediador entre Deus e os homens pecadores; irando-se contra compradores e vendedores no templo;  apelando e ameaçando os homens para não mais pecar . O Espírito Santo não é apenas entristecido pelas ações e comportamentos dos pecadores, mas pode ser atormentado por eles, de modo a se tornar seu inimigo  e  a lutar contra eles (Is 63: 10). Isso, pois, leva-me a considerar,


2. Quem Deus odeia são os pecadores, “os  que praticam a iniqüidade" (Sl 5:5) e não o homem, a sua pessoa. Também Ele não odeia todo pecado ou quem tem pecado, doutro modo todos seriam odiados, pois todos pecaram em Adão e ninguém, nem mesmo o melhor dos homens, é isento dele (Rm 3:23; 1 Jo 1:8). Mas os objetos do ódio de Deus são todos aqueles que pecam deliberadamente, por prazer ( Jo 8:34; 1 Jo 3:8-9); aqueles o qual ele diz: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade (Mateus 7:23). Deus é imparcial, ele odeia "todos os que praticam a iniqüidade e traz indignação, ira, tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal, primeiramente do judeu  e também do grego "(Rm 2:8-9). As Escrituras falam do ódio de Deus por algumas pessoas  antes de elas haverem pecado, mas isso, embora possa ser explicado com alguma dificuldade, pode ser entendido segundo  a perfeição de Deus , tomando seu ódio ao pecado e aos que o praticam deliberadamente . Desse modo se diz: amei a Jacó,E odiei a Esaú ( Ml 1:2-3). Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú ( Rm9:11-13). Essas afirmações que falam sobre Esaú e Jacó são também válidas para todos os eleitos e réprobos. Agora me deixe  observar que esse ódio é para ser entendido não de qualquer ódio positivo no coração de Deus para com eles, mas de um ódio negativo e comparativo  entre eles. Enquanto alguns são escolhidos, preferidos, nomeados para obter graça e glória e para ser levado a grande dignidade e honra; outros são negligenciados, e menos amados, isso é o  que chamado de ódio de Deus contra eles, isto é, uma comparação do amor demonstrado e da preferência dada aos outros, neste sentido, a palavra é usada em Lucas 14:26: "Se alguém não odeia seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, sim, e sua própria vida também, eu não pode ser meu discípulo.”  O significado disso é que o homem não  deve ter um  ódio positivo em suas relações com os seus parentes nem com sua própria vida, mas deve amá-las menos em comparação com o amor  que elas sentem por Cristo; nesse sentido odiar é ter menos afeto de uma coisa em comparação com outra. É nesse âmbito que devemos entender o ódio de Deus  a Esaú e todos os réprobos. Assim fica claro que há dois atos na vontade divina: um é para não conceder benefícios da bondade especial, para não dar graça nem para aumentar a honra e a glória. Isso Deus pode fazer de antemão e sem qualquer consideração do pecado, segundo a sua soberana vontade e satisfação, pois ele não tem nenhuma obrigação de conferir benefícios, mas pode conferi-los a quem ele quiser e como quiser, "não me é lícito fazer o que quiser do que é meu?" (Mateus 20:15). O outro ato da vontade divina é para infligir o mal, em consideração do pecado, pois o pecado não foi causado por Deus, mas sim pela própria vontade do homem. Também desse modo devemos considerar as passagens das Escrituras que dizem que os ímpios foram criados para o dia do mal, que foram predestinados para condenação, que são vasos de ira preparados para destruição e que essa é a vontade de Deus para mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder (Pv 16:4; Jd 1:4; Rm 9:22).” No primeiro ato o ódio de Deus é uma negação da graça, sem a consideração do pecado.  No segundo, o ódio é  uma vontade de punir o pecado;  mas depois Deus nunca mais odeia seus eleitos em qualquer sentido, pois  eles são sempre amados e o ódio é o oposto disso. Ele pode ficar com raiva deles e esconder-lhes por um tempo a Sua face , mas nunca os odeia, apesar de odiar os seus pecados e mostrar o seu ressentimento contra eles. Todavia  ele ainda os ama e os leva ao arrependimento  quando caem em pecado, manifestando-lhes o seu perdão, nunca odiando as suas pessoas.

  
NOTAS:
[1] Aquinas contr. Gentiles, l. 1. c. 96. Vid. Francisc. Silvester. in ibid.


Fonte: Providence Baptist Ministries 
Tradução: Luciano de Oliveira 

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