sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Razões dos Dissidentes para se Separar da Igreja da Inglaterra, Ocasionadas por uma carta escrita por um clérigo sobre o dever de catequizar crianças. Destinadas principalmente aos dissidentes da denominação batista no País de Gales. John Gill




Os dissidentes da igreja da Inglaterra são freqüentemente acusados de cisma, mas essa separação não é mais do que razoável. Eles também são contabilizados como um povo obstinado e polêmico, porém algumas razões pelas quais eles se afastam da igreja estabelecida são bastante adequadas e demonstram que essa separação não surge de um espírito de singularidade e contenção, mas sim de uma questão de consciência. O que eles têm a dizer será suficiente para remover as calúnias que são lançadas contra eles. E nossas razões são as seguintes:


I. Nós não gostamos da igreja da Inglaterra por causa de sua Constituição, que é humana, e não divina. Chama-se Igreja da Inglaterra como fundada pela lei; não pela lei de Deus, mas pela lei do homem; diz-se ser a melhor igreja constituída no mundo, mas nunca foi a melhor por ser constituída de homens. A igreja de Cristo deve ser antes constituída como aquela de Atos dos Apóstolos, e não estabelecida por Atos do Parlamento, como os artigos, o culto e a disciplina da Igreja da Inglaterra o foram; uma igreja parlamentar que não entendemos; O reino de Cristo ou igreja de Cristo não é deste mundo nem é estabelecida em máximas do mundo, nem apoiada pelo poder mundano e político.


II. Não estamos persuadidos de que a Igreja da Inglaterra seja uma verdadeira igreja de Cristo, porque a forma e a ordem da mesma são estatais, enquanto que deveriam ser congregacionais, como eram as primeiras igrejas cristãs. No começo do cristianismo havia varias igrejas em uma nação: A igreja em Jerusalém, igrejas na Judéia, igrejas na Macedônia, na Galácia, as sete igrejas da Ásia, que estavam em cidades específicas; havia também as igrejas nas casas, o que prova que não era estatal; havia também a igreja de Corinto e outra em Cencréia, a poucos quilômetros de distância, em um porto do mar dos Coríntios. A igreja de Cristo é uma congregação de homens unidos pela graça de Deus, separados do mundo e reunidos em um lugar para adorar a Deus. Com isso concorda a definição do artigo XIX da Igreja da Inglaterra: “A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis”. Ora, esse artigo da igreja da Inglaterra está contra si mesmo, pois se é uma congregação, então não pode ser uma nação. Se for uma congregação, então deve se reunir em um só lugar. Ou então a Igreja da Inglaterra não pode com nenhuma propriedade ser chamada de congregação, como a igreja de Corinto (1 Co 11:18-20; 14:23). Mas quando e onde a Igreja da Inglaterra se reúne em um só lugar? E como é a igreja visível de Cristo? Onde e quando foi visto a igreja de Cristo em um único corpo? Deve-se ter o rei como a cabeça dela? Ou o Parlamento, por quem ela foi criada? Ou as casas superiores e inferiores dos seus representantes? Se for para considera-la em cada paróquia, ou prédio de pedra, o que é uma noção estúpida das pessoas vulgares, então deve haver muitas igrejas como a da Inglaterra, assim como há paróquias, e por isso alguns milhares, e não apenas uma.

III. Fazemos objeção à composição da Igreja da Inglaterra. Ela é constituída de todos os homens da nação, bons e maus. Na medida em que todos os nativos da Inglaterra são membros desta igreja por nascimento, devem em sua admissão tornarem-se membros dela, mesmo sendo todos concebidos e nascidos em pecado, e grande parte deles, à medida que crescem, são homens de vida e conversa viciosa. Uma igreja visível de Cristo deve consistir-se de homens fiéis, como diz o artigo acima mencionado, isto é, de verdadeiros crentes em Cristo assim como foram as primeiras igrejas cristãs. Elas eram compostas de pessoas chamadas para serem santas, santificadas em Cristo Jesus e fiéis irmãs umas das outras, como eram as igrejas em Roma, Corinto, Éfeso e Colossos. Havia uma igreja de santos. Mas a igreja da Inglaterra é uma igreja do mundo, ou consiste em sua maior parte de homens do mundo, por isso não podemos manter comunhão com ela.


 IV. Estamos insatisfeitos com a doutrina pregada na igreja da Inglaterra que, geralmente, é muito corrupta e não agradável à palavra de Deus. Essa igreja, portanto, não pode ser uma verdadeira igreja de Cristo, o pilar e fundamento da verdade, conforme afirma o artigo 19: "uma congregação de fiéis na qual a pura palavra de Deus é pregada”; as doutrinas da graça são uma parte considerável, tais como: a eleição eterna em Cristo, a redenção particular por ele, a justificação imputada pelo seu sangue, a salvação pela fé e não pelas obras dos homens, a eficácia da graça divina na conversão, a perseverança dos santos e outras, mas essas doutrinas são quase nunca, ou raramente, pregadas na igreja da Inglaterra, uma vez que dois mil ministros piedosos e fiéis foram excomungados de uma só vez. O Arminianismo tem geralmente prevalecido; os princípios arminianos e a mera moralidade são pregadas e não Cristo e este crucificado, a necessidade de fé nele, a salvação por ele. Por isso somos obrigados a nos afastarmos de tal comunhão e a procurar outro lugar para alimento para nossas almas. Mas, embora os XXXIX artigos da igreja da Inglaterra estejam de acordo com a palavra de Deus, ainda são exceção ou proveito nenhum há, pois são raramente ou nunca pregados, apesar de jurados e subscritos por todos em cargos públicos. Mesmo esses XXXIX artigos ainda são muito deficientes em muitas coisas: não há artigos relacionados aos dois pactos, o de graça e obras, à criação e à providência divinas, à queda do homem, à natureza do pecado e à punição dele, à vocação eficaz, à santificação, ao arrependimento, à fé e perseverança final dos santos, à lei de Deus, à liberdade cristã, ao governo da igreja e à disciplina, à comunhão dos santos, à ressurreição dos mortos e ao juízo final.


V. Nossa dissidência com a igreja da Inglaterra é porque as ordenanças do Batismo e da Ceia do Senhor não são devidamente administradas conforme a palavra de Deus. Por esse motivo ela não pode ser considerada uma igreja de Cristo. O artigo acima diz: “A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual os sacramentos são devidamente ministrados segundo a portaria do próprio Cristo, em todas as coisas que necessariamente se requerem para os mesmos”. Mas as ordenanças não são devidamente administradas na igreja da Inglaterra, de acordo com a prescrição de Cristo; há algumas coisas que são requisitos de necessidade para administração das ordenanças, mas que não são feitas, e outras que são indispensáveis, mas que são prescritas. Quanto a isso, não podemos cumprir.

Primeiro: a ordenança do batismo não é administrada na igreja segundo a regra da palavra de Deus; há algumas coisas usadas na administração deste que são invenção humana e não ordenação de Cristo e outras coisas absolutamente necessárias a ele são omitidas. De fato toda a administração do mesmo não tem nada de agradável à instituição de Cristo, com exceção da forma nua das palavras que fazem uso, “eu te batizo em nome do Pai, etc.”.


1. O sinal da cruz usado no batismo é totalmente anti-bíblico, uma invenção humana, um rito e cerimônia que os papistas gostam muito de fazer. A igreja da Inglaterra faz dele uma espécie de sacramento. O ministro, quando o faz, diz que daqui em diante ele (o batizado) não deve ter vergonha de confessar a fé de Cristo crucificado e corajosamente lutar sob sua bandeira contra o pecado, o mundo e o diabo, continuando um fiel soldado de Cristo até o fim de sua vida. Isso é uma adição humana a uma ordenança divina.


 2. A introdução de padrinhos e madrinhas é sem qualquer fundamento da palavra de Deus; é um dispositivo de homens e não a forma necessária para a administração da ordenança. Além disso, eles são obrigados a prometer para criança, o que eles não podem fazer para si mesmos, nem a qualquer outra criatura debaixo do céu, “a renunciar ao diabo e a todas as suas obras, a pompa vã e a glória do mundo,com todos os desejos de cobiça do mesmo e os desejos carnais, de modo a não seguir ou ser conduzido por eles e sempre acreditar na palavra santa de Deus e obedientemente manter a santa vontade de Deus e seus mandamentos e andar nos mesmos todos os dias de sua vida”.


3. As orações antes e depois do batismo podem muito bem ser contestadas; o que sugere que a remissão dos pecados e a regeneração são obtidas desta maneira e que, como são batizados, são também regenerados e sem dúvida salvos. Na oração antes do batismo há as palavras: “Nós te invocamos para esta criança. Ela vem ao teu santo batismo para receber a remissão de seus pecados pela regeneração espiritual”. Quando a cerimônia é realizada, o ministro declara: “esta criança está regenerada e enxertada no corpo da Igreja de Cristo”. Depois da oração, ele diz: “Nós te rendemos saudáveis graças, Pai misericordioso, que aprouve regenerar esta criança com teu Espírito Santo”. Na ficha de avaliação estão estas palavras: “É certo, pela palavra de Deus, que as crianças que são batizadas, morrendo antes de cometer o pecado atual, são, sem dúvida, salvas.” No Catecismo, o catequista é instruído a dizer ao catequizando que em seu batismo, ele “é feito membro de Cristo, filho de Deus e herdeiro do reino dos céus”. Isso parece muito favorável à noção papista de que os sacramentos conferem a graça ex opere operato. Há coisas que dão desgosto para muitos dissidentes como, por exemplo, o batismo infantil; mas alguns de nós temos razões maiores para sermos contra a administração do batismo infantil na igreja da Inglaterra, pois,


 4. O batismo administrado a crianças não é adequado, pois não encontramos em toda a palavra de Deus que as crianças fossem ordenadas a ser batizadas ou que nunca alguma foi batizada por João, o primeiro administrador dessa ordenança; nem por Cristo, nem por seus apóstolos, nem em nenhuma das igrejas primitivas. As pessoas que lemos que foram batizadas nos primeiros tempos eram tão conscientes do pecado e do arrependimento, tinham fé em Cristo ou professavam ter isso. Um lactente é incapaz de tudo isso; nem muito menos qualquer argumento a favor do batismo infantil pode ser tirado do pacto de Abraão, da circuncisão, do batismo de famílias, ou de qualquer passagem do Antigo ou do Novo Testamento. Além disso,


5. Não podemos olhar para o batismo administrado na igreja da Inglaterra como válido ou como um batismo cristão verdadeiro, porque não é administrado de maneira correta, isto é, por imersão, mas por aspersão ou derramamento de água; nem nós entendemos que o mesmo possa sempre ser realizado de qualquer outra forma; pelo menos nós temos razão de sobra para acreditar que o modo de imersão sempre foi usado por João Batista, pelos apóstolos e igrejas de Cristo durante muito tempo.


Em segundo lugar, há muitas coisas na administração da Ceia do Senhor pela Igreja da Inglaterra que nós às quais nos opomos e que mostramos ser indevidas: pão é cortado com uma faca e não quebrado pelo ministro, considerando que a Palavra diz que Cristo partiu o pão e fez isso em sinal de seu corpo quebrado; o tempo de sua administração, ao meio-dia, o que faz com que se pareça mais com um almoço, ou melhor, como um café da manhã, sendo tomado em jejum, do que como uma ceia que é para ser administrada à noite, concordando com o seu nome e o tempo de sua primeira instituição e celebração.


1. O ajoelhar-se como um requisito necessário para receber a ceia, o que se parece com a adoração dos elementos e um favorecimento à doutrina da presença real introduzida na igreja pelo papa Honório e da transubstanciação pelo seu antecessor, Inocêncio III. Embora a igreja de Inglaterra negue qualquer adoração dos elementos e a presença real de Cristo nos elementos, é uma prática idólatra notória por lá. Isso deveria ser posto de lado. A ceia deveria ser dada quando todos estivessem sentados, uma vez que é mais adequado para uma festa e foi assim feita por Cristo e seus apóstolos e pelas igrejas primitivas até o advento da transubstanciação. No entanto, o ajoelhar-se é apenas um rito indiferente, não deve ser imposto como necessário, mas deve ser deixado à liberdade das pessoas para usá-lo ou não.


2. A ordenança é administrada a todos que querem, sem nenhuma classificação, mesmo aos que têm uma vida viciosa. O ministro, quando na exortação para os que devem tomar a ceia, utilizando-se do Livro de Oração Comum, diz: “Em nome de Deus, eu conclamo a todos os que estão aqui presentes, por amor do Senhor Jesus Cristo, que vós não recuseis a vir a esta mesa”, embora considerando que nem todos os presentes em uma congregação pública ou em uma paróquia sejam comungantes idôneos e aptos e que se enquadrem às pessoas descritas na palavra de Deus que devem participar da mesa (Cor 1. 5:2). No entanto se ordena “que cada paroquiano deve comungar no mínimo três vezes ao ano” e exorta as pessoas recém-casadas a receber a sagrada comunhão na época de seu casamento ou na primeira oportunidade, embora sabendo que nem todas as pessoas recém-casadas estão aptas para isso.


 3. Essa tolerância permite a prostituídas e até mesmo aos piores indivíduos participar da ceia como um teste civil para qualificá-los aos locais de estima e confiança. Mas objetivo desta ordenança é a comemoração dos sofrimentos e morte de Cristo por seus eleitos, do seu amor por eles, do fortalecimento da fé dos cristãos, do amor de Cristo aos irmãos e da comunhão entre eles.


4. Esta tolerância também permite a administração da ceia em uma casa particular, às pessoas doentes, sendo por vezes dada a eles como um remédio ou uma provisão para sua alma em seu caminho para o céu. Mas essa ordenança deve ser administrada somente na igreja e apenas aos membros da mesma.


VI. Outra razão para nos separarmos da Igreja da Inglaterra é por que a mesma não tendo a forma de uma igreja verdadeira, nem é a Palavra de Deus puramente pregada nem as ordenanças devidamente administradas, também tem cargos eclesiásticos e ofícios não encontrados na Palavra de Deus. A escritura nada sabe de Arcebispos e Bispos diocesanos, de arque-diáconos e de decanos, de prebendas, vigários, curas, etc. Os únicos oficiais de uma igreja cristã são bispos e diáconos; aqueles cuidam do espiritual, e estes dos assuntos temporais da igreja. Os bispos, também chamados de pastores ou anciãos, devem ter princípios sólidos, vidas exemplares e conversas sadias; além disso, devem ser escolhidos pelo povo e não serem impostos ao povo contra a sua vontade assim como se dá na Igreja da Inglaterra.


VII. A Igreja da Inglaterra tem um cabeça temporal, enquanto que a Igreja de Cristo não tem outro cabeça, senão o próprio Cristo. Que o soberano rei George é por direito legítimo o chefe da Igreja da Inglaterra, não negamos; ele assim o é por lei do Parlamento e como tal é para ser reconhecido. Mas uma igreja que tem outro cabeça que não seja Cristo não pode nunca ser a verdadeira Igreja de Cristo. Portanto somos obrigados a fazer distinção entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja de Cristo. Uma mulher pode ser, e tem sido, o cabeça da igreja da Inglaterra, mas uma mulher não pode ser chefe de uma igreja de Cristo, já que ela não está autorizada a falar, ensinar ou fazer qualquer coisa que imponha autoridade sobre o homem (1 Co 14:34-35; 1 Tm 2: 1- 12).


VIII. A falta de disciplina na igreja de Inglaterra é outro motivo de nossa discordância dela. Em uma igreja cristã regular e bem ordenada, alguns cuidados com os seus membros são indispensáveis, tais como: o teor de suas conversas, a vigilância de sua caminhada segundo as leis e as regras da casa de Cristo; a repreensão privada ou pública pelos seus pecados, a excomunhão de pessoas desordenadas, a exclusão dos profanos da ceia, a admoestação e a rejeição dos heréticos. Mas nenhuma disciplina como essa é mantida na igreja da Inglaterra. Ela mesma reconhece a falta de disciplina de Deus e deseja uma reparação quanto a isso, o que é feito a cada temporada de Quaresma; embora a disciplina na seja exercida por um ministro de uma paróquia em sua própria congregação, mas no Tribunal do Bispo e ainda assim por leigos. A advertência é dada por homens chamados “Apparitors” e a sentença de excomunhão e todo o processo são conduzidos por advogados, e não pelos ministros da palavra.


IX. Os ritos e cerimônias utilizados na Igreja da Inglaterra são outro motivo da nossa separação dela. Alguns deles são manifestamente de origem pagã, outros de origem judaica e são nada menos do que um reavivamento dos ritos ab-rogados. A maioria deles, se não todos eles, são retidos pelos romanistas e foram e ainda são abusos de idolatria e superstição. Curvar-se para o leste era uma prática idólatra dos pagãos condenada nas Escrituras como uma coisa abominável (Ez 19:15-16). Curvar-se para o altar é uma relíquia do papado com objetivo de adorar os elementos e reverenciar a transubstanciação e a presença real. Portanto de nenhuma maneira esses ritos devem ser utilizados na igreja, pois levam muitos a depositar fé neles. Curvar-se, quando o nome de Jesus é mencionado, é superstição de culto que não tem nada de semelhante a Fp. 2:10. Quanto às cerimônias, que por sua própria natureza não são nem boas nem más, mas indiferentes, devem ser deixadas como tal e não impostas. Mas se há uma imposição de coisas indiferentes no serviço divino como necessárias, de modo que sem elas não se poderia realizá-lo, é uma razão suficiente para que não sejam aceitas como tais. As vestes utilizadas no ofício sagrado são consideradas como coisas indiferentes, podem ser utilizadas ou não, mas se o uso delas é uma exigência necessária e santa, sem a qual o culto divino não pode ser corretamente realizado, deve ser rejeitado como abominável. Também não gostamos da sobrepeliz, que é uma veste introduzida pelo papa Adriano no ano 796 d.C., da cruz no batismo e do ajoelhar-se na ceia do Senhor, pois foram tomadas de empréstimo dos papistas.


 X. Temos muitas razões para nos opormos ao Livro de Oração Comum estabelecido como regra e diretório do culto.


1. Na medida em que prescreve certas formas de oração, prendendo os homens ao uso delas. Não acho que os apóstolos de Cristo, as primeiras igrejas, nem os cristãos durante muitos séculos se utilizaram dessas formas fixas. Isso favorece pessoas de fraca capacidade, uma vez que aqueles que têm o dom de pregar o evangelho e de oração se sentem obrigadas a se utilizar dessas formas fixas, inibindo, portanto, a necessidade dos dons. Ademais não concorda essa forma com a promessa do Espírito de graça e de súplica, segundo os diferentes casos, circunstâncias e situações em que os cristãos estão por vezes. Portanto, o defeito dessas orações, a incoerência e obscuridade de alguns dos pedidos delas, as tautologias e repetições freqüentes, especialmente na Ladainha, tão contrárias ao preceito de Cristo em Mateus 6:07 são suficientes para não gostarmos delas.


2. Embora não sejamos contra a leitura das Escrituras de maneira privada ou pública, não podemos aprovar a forma da liturgia dirigida, ou seja, por partes, seções, mutilando e reduzindo os Evangelhos e as Epístolas. A omissão de trechos das Escrituras, a ordem de classificação da pregação delas, a fixação das matinas e canções cheira a papado, portanto, não são recomendadas para nós. Também nos incomoda a maneira errônea que eles chamam passagens de Isaías, Jeremias, Joel, Malaquias e Atos dos apóstolos com o nome de Epístolas. Mas especialmente nos dá intranquilidade é ver as lições tiradas dos Apócrifos e designadas para serem lidas com igual autoridade às Sagradas Escrituras; mais ainda, não só os livros de Baruque, Sabedoria, Eclesiástico, mas também as histórias de Tobias, Judite, Susana, Bel e o Dragão que contêm fatos ociosos e fabulosos.


3. O Livro de Oração Comum ordena a leitura do livro de Salmos na corrupta tradução da Vulgata Latina, usada pelos romanistas, em que há grandes omissões e subtrações em algumas partes. Em todos os lugares os títulos dos Salmos são deixados de fora e em todas as passagens há a presença das palavras Higgaion e Selah; no último versículo do Salmo 72 e em outros há manifestas adições, como nos Salmos 02:12; 4:8; 13:06, 22:1,31; 39:12; 132:4; 136:27; 147:8 e três versos inteiros no Salmo 14; nada deve ser retirado, nem acrescentado à palavra de Deus. Algumas frases são absurdas e vazias de sentido, como nos Salmo 58:8; 68:30, 31, e em outras o sentido é pervertido ou contrário, como no Salmos 17:4; 18:26; 30:13; 105:28; 106:30; 107:40; e 125:3. Esta tradução dos Salmos está na Liturgia Inglesa e é usada e lida nas igrejas na Inglaterra.



4. Ele direciona à observação de jejuns e festivais não ordenados na palavra de Deus, indicando os evangelhos e as epístolas que devem ser lidos. Os jejuns acontecem na Quaresma, à imitação dos 40 dias de jejum de Cristo no deserto, nas quatro semanas, nos dias de Súplica, e todas as sextas-feiras do ano, em que os homens são ordenados a abster-se de carnes que Deus criou para serem recebidas com ações de graças. Os festivais, todos de invenção papista - Natal, Páscoa e Pentecostes - são vários dias santos ao longo do ano; são também móveis ou fixos, como aqueles e, sendo relíquias, nos torna ainda mais inquietos e insatisfeitos.


5. Além das corrupções antes observadas nas ordenanças do Batismo e da Ceia do Senhor, na ordem da Visitação do Doente está uma forma de absolvição que diz assim: “Com a autoridade (de Cristo) e a minha vontade, eu te absolvo de todos os teus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, que é um dispositivo simplesmente papista. Cristo não deixou nenhum poder para sua igreja, nem concedeu qualquer autoridade a qualquer conjunto de homens nela, além da autoridade ministerial de declarar e pronunciar que os que creem em Cristo devem receber a remissão dos pecados e que são perdoados a partir do momento que crêem e condenados quando não crêem.


 6. O Livro de Oração Comum aponta algumas coisas meramente civis como eclesiásticas e pertencentes ao ministério para serem executadas por eclesiásticos e ministros:


1. O matrimônio, que é um mero contrato civil entre um homem e uma mulher, parece favorecer a noção papista de sacramento. Um ministro da palavra do Novo Testamento, assim como um levita ou sacerdote do Antigo Testamento, não tem nenhuma função nesse âmbito segundo a forma e as cerimônias como hoje acontecem;
 2. O enterro dos mortos, que é uma mera ação civil e não pertencente ao ministro do evangelho, mas dos vizinhos, amigos ou conhecidos dos falecidos (Mateus 8:21- 22; Atos 8:02); nem há qualquer necessidade de consagrar um lugar para tal finalidade: Abraão e Sara foram enterrados em uma caverna, Debora debaixo de um carvalho, Josué em um campo, Samuel em sua casa e Cristo em um jardim (Gênesis 23:09; 35:8, João 24:30; 1 Sm 25: 1; Jo 19:41). Nem as Escrituras nunca fazem menção de qualquer serviço para ser lido ou de qualquer culto divino a ser realizado no enterro dos mortos e nem torna qualquer coisa desse tipo como necessária. Devemos nos opor a isso e não cumprir o serviço utilizado pela Igreja da Inglaterra nesta ocasião. Não podemos em sã consciência chamar todo homem ou mulher de nosso querido irmão ou de nossa querida irmã, uma vez que alguns deles viveram uma vida viciosa e pelo que parece nunca tiveram o verdadeiro arrependimento para Deus ou a fé em Cristo; nem podemos dizer que todos foram “sepultados na esperança segura e certa da ressurreição para a vida eterna", pois sabemos que haverá uma ressurreição para a condenação, bem como outra para a vida eterna, desse modo não podemos dar graças a Deus por conta de todos; nem podemos nos juntar em coro nesta seguinte petição que parece favorecer a noção papista de oração pelos mortos: “Suplicamos: que todos aqueles que partiram na verdadeira fé possam ter a consumação e a felicidade perfeitas tanto no corpo como na alma”, etc.


XI. Nós não podemos comungar com a Igreja da Inglaterra, porque ela tem um espírito de perseguição. Desse modo uma igreja que perseguiu os puritanos no tempo da rainha Elizabete e os dissidentes no reinado de Carlos II, não pode ser cogitada como uma igreja verdadeiramente cristã. Não é para ser negado, apesar de hoje não prevalecer o mesmo espírito sob o governo leve e suave do nosso gracioso soberano Rei George, o cabeça da Igreja, com o qual temos motivos para sermos gratos, os ingleses nascidos livres muitas vezes são privados de seus direitos por não concordarem com a Igreja da Inglaterra. Além disso, a censura e ultrajes que diariamente são lançados sobre nós do púlpito e da imprensa, bem como em uma conversa mostram a mesma coisa. Então para remover todas as calúnias e censuras movidas contra nós elaboramos acima as razões de nossa discordância com a Igreja da Inglaterra. Mas o motivo principal para a publicação dessa defesa foi ocasionada por uma Carta que falava da obrigatoriedade da catequese das crianças em que o autor elogia a Igreja da Inglaterra como a mais pura igreja debaixo do céu e menospreza os dissidentes particularmente chamando-os de rebatizadores. O autor repete a obsoleta e velha história dos anabatistas alemães, dos seus erros e distrações insinuando maliciosamente que as pessoas que agora tomam esse nome são imbuídas de princípios errôneos, pois, diz ele, que os mesmos estenderam os seus erros em países adjacentes. O autor ainda afirma que se trata de um povo faccioso e que não concorda com eles em coisa alguma, nem com seus direitos civis, nem com seus princípios religiosos. O mesmo diz que repetimos o batismo de adultos e que não utilizamos da aspersão como eles e que a diferença entre nós e eles é muito maior do que entre os romanistas e a Igreja da Inglaterra. Ainda o autor da carta sugere com impropriedade histórica que todos os assassinatos e massacres foram iniciados por nós e não pelos pedobatistas. Mas se o autor se utilizasse da verdade, constataria que as perturbações na Alemanha foram iniciadas primeiramente por pedobatistas, papistas antes da reforma e depois pelos luteranos a quem Lutero tentou dissuadir de tais práticas. Mesmo os distúrbios em Munster foram iniciados por ministros pedobatistas, com quem alguns anabatistas se juntaram, mas o escândalo só foi contabilizado na conta dos anabatistas. Mas o que tudo isso representa para nós que tanto negamos esses princípios e práticas sob os céus? Nem a nossa forma diferente de pensar sobre o batismo de alguma maneira tende para isso.


Fonte: Providence Baptist Ministries 
Tradução: Luciano de Oliveira
Revisão: Rafael Abreu

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