"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20:8-11).
Vemos que promulgou este mandamento por três motivos:
Primeiro, porque o Senhor quis, por meio do repouso
do sétimo dia, dar a entender ao povo de Israel o repouso espiritual no qual
devem os fiéis abandonar suas próprias obras para que o Senhor opere neles.
Em segundo lugar, quis que existisse um dia ordenado
para reunir-se, para escutar sua Lei e tomar parte em seu culto. Em terceiro
lugar, quis que aos servos e a os que vivem sob o domínio de outro lhes fosse
concedido um dia de repouso para poder descansar de seu trabalho. Mas isto é
uma conseqüência, antes que uma razão principal.
Em quanto ao primeiro motivo, não há dúvida alguma de
que cessou com Cristo: pois Ele é a Verdade com cuja presença desaparecem todas
as figuras, e é o Corpo com cuja vinda se esvaecem todas as sombras. Pelo qual
são Paulo afirma que o sábado era "a sombra do porvir". Do resto,
declara a mesma verdade quando, no capítulo 6 da carta aos Romanos, nos ensina
que fomos sepultados com Cristo, a fim de que por sua morte morramos à
corrupção de nossa carne. E isso não se efetua num só dia, senão ao longo de
toda nossa vida até que, mortos inteiramente a nós mesmos, sejamos
transbordados da vida de Deus. portanto deve estar muito longe do cristão a
observação supersticiosa dos dias.
Mas como os dois últimos motivos não podem contar-se
entre as sombras antigas senão que se referem por igual a todas as épocas,
apesar de ter sido ab-rogado o sábado, ainda tem vigência entre nós o que
escolhamos alguns dias para escutar a Palavra de Deus, para romper o pão
místico na Ceia e para orar publicamente. Pois somos tão fracos que é
impossível reunir tais assembléias todos os dias. Também é necessário que os
servos e os operários possam repor-se de seu trabalho.
Por isso foi abolido o dia observado pelos judeus —o
qual era útil para desarraigar a superstição—, e se destinou a esta prática um
outro dia —o qual era necessário para manter e conservar a ordem e a paz na
Igreja.
Se, pois, aos judeus se deu a verdade em figura, a
nós se nos revela esta mesma verdade sem nenhuma sombra: Primeiramente, para
que consideremos toda nossa vida um "sábado", quer dizer, repouso
contínuo de nossas obras, para que o Senhor opere em nós por meio de seu
Espírito.
Em segundo lugar, para que mantenhamos a ordem
legítima da Igreja, com o fim de escutar a Palavra de Deus, receber os
Sacramentos e orar publicamente.
Em terceiro lugar, para que não oprimamos
desumanamente com o trabalho aos que nos estão sujeitos.

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